Viver e Trabalhar no Canadá

A nossa experiência numa cidade cosmopolita: Toronto

Vamos contar-te como foi viver e trabalhar em Toronto: desde procurar emprego e casa até às questões legais que não podes ignorar. Embora o processo seja semelhante noutras cidades canadianas, cada província tem as suas próprias regras. Por isso, mesmo que não escolhas Toronto, as nossas dicas vão ajudar-te. Faz sempre a tua pesquisa, porque leis e custos variam de cidade para cidade.

Se estás com um visto de turismo, o ponto 1 vai ser importantes para a tua viagem.

  1. Voos e Bagagem
  2. Flagpoling e regressar ao Canadá
  3. Número de Telemóvel
  4. Conta Bancária
  5. A Mudança para Toronto e a procura de casa
  6. SIN – Social Insurance Number
  7. Impostos e CRA
  8. EI e CPP
  9. Encontrar Trabalho
  10. Sistema de saúde
  11. Carta de condução
  12. Lojas de roupa e supermercados
  13. Custo de Vida em Toronto

1. Voos e Bagagem

Os voos para o Canadá não são tão longos como os que fizemos para a Austrália, mas continuam a ser mais longos do que a maioria dos voos na Europa. O Canadá é um país enorme, e as opções de voo dependem da região para onde vais.

Voos diretos de Portugal estão disponíveis com a TAP, Air Canada e Air Transat. Também existem opções com escalas nos EUA, Europa, Açores (SATA) ou dentro do próprio Canadá. Nós voámos a partir do Porto em outubro pela Air Transat, e pagámos cerca de 370€ por pessoa com o pacote Option Plus, que incluía reserva de lugares e mala de porão. Os bancos eram confortáveis, com espaço suficiente, e o serviço incluía refeição, snacks, água, sumo e café. O voo demora cerca de 8 horas, mas no regresso faz-se em apenas 7 horas, graças à jetstream, uma corrente de ar que “empurra” o avião da América do Norte para a Europa. Bebe muita água e levanta-te para esticar as pernas durante o voo, vais sentir-te muito melhor no final.

Experiências com outras companhias:

  • Natal e Ano Novo 2023/24: Voámos pela SATA com escala nos Açores (ida) e regresso direto de Lisboa pela TAP. Pagámos 414€ e 515€ no regresso, ambos os valores por pessoas e sem mala de porão. Foi caro, mas justificava-se pela época.
  • Regresso definitivo (janeiro 2025): Voámos pela TAP, pagámos 380€ por pessoa com bagagem de porão. O preço subiu 2,50€ devido a duas alterações de voo, e adicionámos uma mala extra, que custou 120€.

Se o teu destino não for Toronto:

  • Para cidades como Ottawa ou Montreal (Ontário e Quebeque), há voos diretos ou com uma escala a partir de Portugal, Europa ou EUA.
  • Se o destino for British Columbia (Vancouver) ou Alberta (Edmonton/Calgary), vais ter de fazer escala no Canadá ou nos EUA. Atenção que se a escala for nos EUA, precisas de um ESTA (autorização semelhante ao eTA, mas para os Estados Unidos), mesmo que não saias do aeroporto.
  • Para cidades mais pequenas ou zonas remotas, o mais comum é voar primeiro para uma grande cidade (como Toronto) e depois apanhar outro voo, comboio ou autocarro.

Bagagem – O que levar?

Levámos as mesmas malas que usámos na Austrália: a Bárbara usou a Osprey Fairview 40L como mala de cabine, e o João levou a Osprey Farpoint 70L no porão. Desta vez, tivemos de incluir mala de porão devido à roupa de inverno. Embora pudéssemos comprar tudo no Canadá, a roupa não é barata (não há lojas como a Primark). Além disso, com dois portáteis e equipamento fotográfico, seria impossível levar tudo nas malas de cabine.

  • A Air Transat permite uma mala de cabine (cerca de 40L) e uma pequena (cerca de 15L), com dimensões semelhantes às companhias europeias.
  • A Bárbara levou uma mala grande com rodas no porão, a Osprey e uma mochila com itens pessoais.
  • O João levou a Osprey no porão, uma mochila extra de 40L da Decathlon e a mala da máquina fotográfica como mala pequena.
  • Usa packing cubes pois ajudam imenso na organização!

Roupa: Levámos o básico como roupa interior, t-shirts, calças, algumas sweaters e camisas (para o João, já a pensar em trabalho de escritório). Não é preciso levar muita, o Canadá é moderno e não faltam lojas (inclusive de segunda mão), mas os preços são mais altos do que em Portugal ou na Austrália. Quanto a calçado, levámos 2 pares de sapatilhas e 1 par de botas cada um. O clima no Canadá varia de região para região, mas, em geral, os invernos são muito frios e os verões quentes ou amenos. Levámos roupa quente: camisolas, gorro e casacos de inverno. Os casacos que trouxemos aguentaram -8°C e neve na Serra da Estrela, mas não eram suficientes para o Canadá, por isso aproveitámos a Black Friday para comprar casacos de invernos que aguentam até -40°C.

Higiene pessoal: Tudo o que precisares pode ser comprado no Canadá, sem preços muito mais altos do que em Portugal, por isso só levámos o básico como as nossas escovas de dentes elétricas.

Eletrónica: A rede elétrica no Canadá é de 110 V e 60 Hz, com tomadas diferentes. Quase toda a nossa eletrónica era 110/230 V e 50/60 Hz, por isso só precisámos de adaptadores. As exceções foram o secador e o carregador das escovas de dentes, que acabámos por comprar novos em vez de transformadores.

Chegada ao Canadá

Quando chegares ao aeroporto e mostrares o passaporte, vão-te indicar para onde te deves dirigir. Pedem-te a Port of Entry (PoE) e o passaporte, mas normalmente também solicitam o certificado do seguro e prova de fundos (é melhor teres uma cópia impressa, pois podes não ter acesso à internet para mostrar o extrato bancário). Todos os documentos que usaste na candidatura podem ser requeridos, por isso aconselhamos a que imprimas uma cópia e os leves numa pasta.

A nós, só nos pediram o passaporte e a PoE. Sentámo-nos, e passados 10 minutos já tínhamos a nossa Work Permit (WP). Guarda-a bem, pois vais precisar dela para:

  • Pedir o teu SIN (número de segurança social),
  • Voltar a entrar no Canadá (se quiseres viajar),
  • Arranjar trabalho,
  • Abrir conta bancária, entre outros.

Se trouxeste malas de porão, podes recolhê-las depois de teres a WP.

2. Flagpoling e regressar ao Canadá

Flagpoling é um processo em que sais do Canadá, vais até à fronteira mais próxima e reentras para ativar ou prorrogar o teu estatuto de imigração. É usado, por exemplo, por quem tem um Working Holiday Visa (WHV) e quer ativar a Work Permit sem esperar.

Como funciona na prática? Ao entrares no Canadá, podes optar por não ativar o WHV de imediato e ficar como turista. Sem a Work Permit, algumas coisas ficam limitadas (como trabalhar ou abrir conta bancária). Para ativar o WHV, vais a uma fronteira terrestre com os EUA, explicas que estás a fazer flagpoling e que não queres entrar nos EUA. Os agentes americanos dão-te um documento, e os canadianos ativam o visto e emitem a Work Permit.

Não recomendamos este processo porque muitas vezes os agentes de imigração do Canadá podem negar-te a entrada, principalmente em fronteiras mais movimentadas. E ainda menos em 2025/26, devido à atual situação nos EUA.

Se quiseres sair temporariamente do Canadá, leva sempre a Work Permit e o passaporte.

A nossa experiência: Nós saímos duas vezes para os EUA (uma de avião e outra de autocarro) e só nos pediram esses dois documentos. Quando voltámos a Portugal, só nos pediram a WP em Lisboa, e não no Canadá. No final do nosso WHV, fizemos uma road trip pelo Canadá e, um dia antes do visto terminar, atravessámos para os EUA, onde ficámos quase 3 meses. Ao regressar ao Canadá, o agente não facilitou e questionou o facto de querermos entrar como turistas após um WHV, mas acreditamos que estes fatores ajudaram: O carro com matrícula de Ontário, termos saído do Canadá antes do fim do visto, termos entrado nos EUA na costa oeste e regressar ao Canadá quase 3 meses depois, já do outro lado do país. O mais importante: Tínhamos os voos para Portugal marcados e apresentámos os bilhetes.

3. Número de Telemóvel

Não te esqueças de que o teu telemóvel tem de estar desbloqueado. Um número canadiano é essencial para abrir uma conta bancária e para serviços do estado, por isso é melhor tratar disso logo à chegada. Quando chegámos, dirigimo-nos ao balcão da Fido no aeroporto, uma das redes mais acessíveis no Canadá, com boa cobertura. Os preços das telecomunicações são elevados, mas é o que há.

No início, o único plano razoável que encontrámos era de minutos e SMS ilimitados com 20GB de dados por $50. Duas semanas depois, o preço baixou para 35 dólares pelo mesmo plano. Passados três meses, conseguimos manter o plano por 35 dólares graças a uma promoção na app da Fido. É importante que fiques atento às promoções, pois surgem com frequência. Geralmente, há uma taxa de ativação de ($50 no nosso caso), mas pode ser descontada na primeira fatura.

Depois de um ano, mudámos para a Freedom Mobile numa promoção de Black Friday: pagávamos 1 dólar a menos por mês, com mais 10GB de dados e roaming nos EUA incluído.

4. Conta Bancária

Hoje em dia, bancos online como o Revolut e o Wise facilitam muito a vida, permitindo-te usar diferentes moedas com taxas baixas. Mesmo assim, faz sentido abrir uma conta local. A nossa recomendação é o CIBC: tem muitos balcões, nunca tivemos problemas, e oferece contas à ordem e poupança, cartões de débito e crédito; tudo grátis durante 2 anos. Na conta poupança, ainda te dão bónus como uma taxa de juro superior nos primeiros 4 meses.

Cartão de crédito: usa sem medo, mas com consciência. Se nunca tiveste um, funciona de forma simples: cada compra é feita a crédito, e o dinheiro só é retirado no final do mês seguinte. Por exemplo, abrimos a conta no dia 11 de outubro, por isso o nosso período ia do dia 11 ao dia 10 do mês seguinte. O limite para pagamento era dia 1 do mês a seguir. Ao dia 11, recebíamos o extrato e pagávamos sempre 100% do valor em dívida, evitando juros. Ativámos o pagamento automático a 100% para nunca nos esquecermos.

Vantagens de usar o cartão de crédito com pagamentos a 100%:

  • O dinheiro que gastas durante o mês pode ficar na conta poupança a gerar juros.
  • Cashback: Tínhamos 3% em supermercados e transportes, 2% em mensalidades e 1% no resto.
  • Construção do Credit Score: Essencial para créditos maiores (casa ou carro) ou alugar casa. Se planeias ficar no Canadá, o credit score é fundamental.
  • Só usávamos o cartão de débito em sítios que não aceitavam crédito.

Limite de crédito: Depende da pessoa que abre a conta e dos teus rendimentos. O João, ainda sem emprego, teve um limite de $1.000/mês. A Bárbara, já empregada, teve $1.500/mês. Passados 6 meses, ofereceram-nos o dobro do limite. Aceitámos, não para gastar mais, mas para usar uma percentagem menor do limite, o que melhora o credit score.

Dica extra: Podes “carregar” o cartão com dinheiro se atingires o limite antes do tempo ou quiseres fazer uma compra superior ao limite para aproveitar o cashback. Por exemplo, o João precisou de um portátil de $1.500 e pagou $500 antecipadamente para usar o cartão e maximizar o cashback. Atenção que isto pode afetar negativamente o credit score.

A conta no CIBC só era gratuita durante 2 anos. Como planeávamos fazer uma road trip que incluía os EUA e só íamos deixar o Canadá uns meses depois desse período, abrimos uma conta na Tangerine, um banco online. Assim, conseguimos manter uma conta e cartão canadianos, o que nos permitiu manter os débitos diretos dos telemóveis e do seguro do carro, e também receber o refund dos impostos de forma mais fácil (que só seria processado meses depois de sairmos do Canadá).

Ao contrário do CIBC, o Tangerine não abre contas a recém chegados nem a residentes temporários. Como o João tinha a carta de condução canadiana (válida como documento de identificação), conseguiu abrir a conta, no entanto, só emitiram cartão de débito. A Bárbara, por não ter a carta de condução, não conseguiu abrir conta, mas uma chegava para os dois. Não fechámos a conta do CIBC de imediato para aproveitar o cashback do cartão de crédito ao máximo. Por segurança, cancelámos o cartão de crédito em agosto, fizemos o último pagamento e fechámos tudo em setembro, já que o visto e os 2 anos de conta gratuita terminavam em outubro.

5. A Mudança para Toronto e a procura de Casa

Tal como na Austrália, queríamos viver numa grande cidade pela experiência e facilidade em encontrar trabalho. Inicialmente, pensámos em Vancouver pela beleza das montanhas e a proximidade ao Banff National Park. No entanto, além de ser mais cara do que Toronto, a Bárbara, que ia trabalhar remotamente para o Reino Unido, teria de começar à 1 da manhã devido ao fuso horário. Se nos limitássemos à costa leste, Toronto era a escolha óbvia por ser a cidade mais interessante da região. O Quebeque estava fora de questão devido à predominância do francês, o que tornaria a integração mais complicada.

Se escolheres Toronto como nós, é provável que chegues ao Terminal 3. Para saíres do aeroporto, apanha o Terminal Link Train (grátis) até ao Terminal 1. Aí, podes apanhar o UP Express, um comboio que te leva diretamente à Union Station, no centro da cidade. Nós saímos em Bloor, onde tínhamos reservado um AirBnB. O bilhete até à Union custa $12.35 (≈8.50€), e os comboios circulam de meia em meia hora, entre as 4h da manhã e as 11h da noite (não há serviço de madrugada).

Alojamento nos primeiros tempos: Tal como na Austrália, optámos por um AirBnB. É um pouco mais caro que um hostel, mas com o nosso espaço para relaxar depois da viagem. Escolhemos The Junction, uma zona com ótimos preços, excelentes avaliações, perto de supermercados e da estação de metro para o centro. O comboio do aeroporto ficava a 10 minutos a pé. Ficámos com um casal muito simpático: ele ator, ela estudante de Direito, com duas crianças adoráveis. Deram-nos dicas valiosas, deixaram-nos ficar uma noite extra para a mudança e até nos emprestaram um colchão de ar para os primeiros tempos. Pagámos cerca de 600€ por 10 noites.

Reserva pelo menos um mês, ou até dois se puderes. Arranjar casa em Toronto pode ser um drama: é a segunda cidade mais cara do Canadá e uma das mais caras do mundo, com muita concorrência. O desafio é arranjar casa e trabalho, já que o resto (banco, telemóvel, SIN) resolve-se em 1 ou 2 dias. Se tiveres família ou amigos para os primeiros tempos, aproveita!

Procura de casa: Podes usar vários sites, mas não te esqueças do Facebook Marketplace e dos grupos. Alugar um quarto é mais fácil e barato, mas nós optámos por um apartamento, principalmente porque a Bárbara trabalhava remotamente. Escolhemos o centro para evitar depender do carro, e também porque queríamos estar no meio da ação e usar transportes públicos ou andar a pé.

A Bárbara encontrou um apartamento fantástico num grupo do Facebook. A senhoria, jovem e simpática, gostou de nós e guardou-nos o apartamento durante uma semana, enquanto o João aguardava pelo contrato de trabalho. Como tínhamos credit score do Reino Unido, apresentámos isso junto com os contratos de trabalho. A lei de Ontário diz que só é preciso pagar 2 meses adiantados (primeiro e último), mas para facilitar, oferecemo-nos para pagar um terceiro mês adiantado, o que ficou registado no contrato.

O apartamento: Ficava super bem localizado, a 5 minutos a pé da Union Station (o principal hub de transportes de Toronto), perto de supermercados, restaurantes, parques e outros negócios. Como o prédio é mais antigo, o apartamento era mais espaçoso do que nos edifícios recentes. A maioria dos moradores são donos dos seus apartamentos, o que cria uma grande comunidade: as pessoas são simpáticas, o pessoal da receção é acolhedor, e há um jardim comunitário onde podemos colher ervas aromáticas, frutos e vegetais. Além disso, os moradores costumam oferecer coisas que já não precisam. Deram-nos vários eletrodomésticos e móveis, o que ajudou imenso nos primeiros tempos. Pagávamos $2.500 por mês, com todas as despesas incluídas (água, eletricidade, aquecimento e A/C), exceto a internet, que custava $45/mês com a Fido.

Contrato de Arrendamento: O nosso contrato era de um ano, renovável automaticamente mês a mês a partir do dia 1. Isto significava que, para sairmos, tínhamos de avisar com 60 dias de antecedência. Do lado da senhoria, ela também tinha de nos avisar com 60 dias e pagar um mês de renda como compensação se quisesse terminar o contrato.

A nossa senhoria enviou-nos um email no dia 1 de dezembro às 00:40 a denunciar o contrato, alegando que se ia mudar para o apartamento. O prazo que deu foi até 31 de janeiro, ou seja, os tais 60 dias. Na altura, ficámos nervosos, porque não estávamos à espera de sair e, com planos de viajar a partir de abril/maio, teríamos de arranjar um sítio por apenas 2-3 meses.

Foi aí que descobrimos que ela fez tudo mal e de forma ilegal. Primeiro, um email não basta: a senhoria tem de usar o formulário oficial do governo de Ontário, o N12, para denunciar o contrato por “uso próprio”. Depois de algumas trocas de emails, ela tentou que assinássemos o N11, um acordo mútuo para terminar o contrato. Se tivéssemos assinado, perderíamos o direito à compensação de um mês de renda. Recusámos o N11 e exigimos que ela usasse o N12. Como já estávamos a meio de dezembro, os 60 dias só começaram a contar a partir de 1 de janeiro, o que adiou a data de término para 28 de fevereiro. Com mais tempo, conseguimos encontrar um T1 nas redondezas pelo período de que precisávamos, 6 semanas.

O que aprendemos e o que deves saber: Se estiveres nesta situação, exige sempre o formulário oficial. Um email ou mensagem informal não tem valor legal. Nunca assines um N11 sem entenderes as consequências, porque ao fazê-lo, perdes o direito à compensação de um mês de renda. Verifica sempre as datas, porque os 60 dias de aviso prévio só começam a contar depois de recebes o formulário correto.

Se precisares de ajuda, o Tribunal de Arrendamento de Ontário (LTB) e organizações como a Federation of Metro Tenants’ Associations (FMTA) oferecem informações e apoio gratuito.

6. SIN – Social Insurance Number (Número de Contribuinte)

O SIN (Social Insurance Number) é equivalente ao nosso NIF (número de contribuinte), e para obter tens de ir pessoalmente a um Service Canada Centre. Embora seja possível marcar online, os agendamentos podem demorar dias ou semanas. Ir presencialmente é mais rápido e recebes o número na hora. O processo é rápido e demora cerca de 15 minutos.

Documentos necessários:

  • Passaporte;
  • Work Permit (WP);
  • Morada no Canadá (pode ser a do AirBnB ou outro alojamento temporário).

Sem o SIN não podes trabalhar legalmente no Canadá. Além disso, é essencial para abrir uma conta bancária, receber o salário, pagar impostos e aceder a serviços governamentais. O SIN é uma informação sensível e pode ser usada para fraude, por isso guarda-o com segurança. Só o deves partilhar com o teu empregador ou com a Canada Revenue Agency (CRA) para questões fiscais. Nunca o partilhes com estranhos ou em sites não confiáveis.

O Service Canada recomenda que não transportes o SIN contigo no dia a dia. Guarda-o num local seguro e, se possível, memoriza o número. Se perderes o cartão, podes pedir uma cópia do comprovativo num Service Canada Centre. Não precisas do cartão físico, o número é suficiente para quase todos os processos.

7. Impostos e CRA

Sempre achámos que preencher o IRS em Portugal era desnecessariamente complicado, ainda mais depois de o termos feito no Reino Unido e na Austrália, mas preencher a declaração de impostos no Canadá é outro nível de complexidade. Não vamos fazer um guia passo a passo para todas as situações, mas vamos partilhar a nossa experiência em três fases: primeiro ano, ano completo e depois de deixar o Canadá.

Se estiveres no Canadá e tiveres uma morada canadiana, o processo pode ser relativamente simples se a tua situação fiscal for básica (apenas rendimentos por conta de outrem). Podes usar qualquer software autorizado pela CRA (Canada Revenue Agency), que tem opções gratuitas e pagas, para computador, telemóvel ou online.

Prazos e Documentos Necessários

O ano fiscal no Canadá vai de janeiro a dezembro, e o prazo para apresentar a declaração de impostos é geralmente semelhante todos os anos. Por exemplo, em 2023, o preenchimento online abriu a 19 de fevereiro de 2024, com prazo até 30 de abril. Para isto, vais precisar do teu T4, um resumo de rendimentos por conta de outrem, e que o teu empregador te deve fornecer até ao final de fevereiro. Este resumo inclui os teus rendimentos e descontos. Não precisas de acesso à CRA para preencher os teus impostos pela primeira vez, até porque só te podes registar depois de submeteres a declaração, e apenas após esta ser processada.

Residência Fiscal no Canadá

Para preencheres os impostos no Canadá, tens de ser considerado residente fiscal. Isto aplica-se se:

  • Estiveste mais de 180 dias no Canadá durante o ano fiscal,
  • O teu companheiro ou filhos vieram contigo,
  • Alugaste ou compraste uma casa/apartamento,
  • Compraste um carro,
  • Trocaste a tua carta de condução por uma canadiana,
  • Compraste seguro de saúde provincial.

Se respondeste “sim” a qualquer uma destas perguntas, és considerado residente fiscal desde a data de entrada no país. Deves declarar todos os rendimentos, tanto os obtidos no Canadá como os de fora do país, durante esse ano fiscal. Se não estiveste no Canadá o ano todo, podes declarar-te como residente parcial.

Quando Contratar um Contabilista?

Se recebeste rendimentos de um empregador fora do Canadá enquanto estavas no país, ou se trabalhaste por conta própria, aconselhamos que contrates um contabilista. Também é uma boa ideia se simplesmente não quiseres lidar com a burocracia dos impostos.

Se fores considerado “non-resident for tax purposes” ou se deixaste o Canadá permanentemente durante o ano fiscal, não podes preencher os impostos online, tens de o fazer em papel.

Primeiro Ano

Os impostos no Canadá são muito mais complicados de preencher do que em Portugal, e nem sequer podes fazê-lo diretamente no site da CRA (Canada Revenue Agency). A nossa recomendação é que faças como nós: no primeiro ano, usámos a ajuda de uma Tax Clinic, um serviço de voluntários que apoia pessoas com baixos rendimentos ou recém-chegadas ao Canadá. Fizemos marcação online para uma data e horário disponíveis, e no dia voluntária fez-nos várias perguntas, pediu os nossos dados e explicou tudo o que preencheu – tudo feito online por videochamada. No final, enviou-nos um PDF individual com toda a informação e cálculos, explicou algumas linhas e disse-nos que iríamos receber um reembolso (refund), porque tínhamos pago impostos a mais. Também nos falou sobre os tax credits, que são, basicamente, subsídios a que quase toda a gente tem direito.

Atenção à morada que indicas, porque é nela que vais receber uma carta com um resumo dos teus impostos. Guarda-a pois tem as informações de acesso ao site da CRA. Se tiveres direito a um refund, vais receber um cheque. No primeiro ano, o reembolso é sempre pago por cheque, por isso certifica-te que preencheste a morada correta, e mesmo que te tenhas mudado, que tens acesso à mesma.

Depois de teres acesso à CRA, verifica se os teus dados estão corretos. Vais precisar de um código por SMS para fazer login (autenticação em dois fatores). Pede também uma grelha de códigos como segunda opção de acesso. Isto é útil não só para teres um método alternativo, mas também porque, se não quiseres permanecer no Canadá (como nós), vais precisar dela para acederes à CRA depois de deixares o país (se for o caso) já não teres um número canadiano (a CRA não aceita números internacionais). A grelha tem uma validade de vários meses, por isso deves renová-la de periodicamente.

Por fim, preenche os teus dados bancários na CRA. Assim, garantes que refunds futuros e tax credits são pagos por transferência e não por cheque.

No software que usares, vais ter de responder corretamente a perguntas como:

  • “Were you a resident for all of [ano]?”No,
  • “Did you become a resident for tax purposes in the taxation year?”Yes.

Depois, indica a data em que entraste no Canadá e introduz os rendimentos obtidos fora do país, convertidos em dólares canadianos. Não te preocupes, não vais ser taxado duas vezes, isto serve apenas para calcular os teus tax credits.

Tax Credits

Existem dois tipos de Tax credits, refundable e non-fedundable.

Non-refundable Tax credits são valores que podem ser subtraídos aos impostos que deves. Um exemplo é o basic personal amount, equivalente ao montante isento de impostos em Portugal. No Canadá, este valor é ajustado anualmente e existe tanto a nível federal como provincial. Para 2023, o basic personal amount federal era de $15.000. Se ganhaste menos do que isso, não pagas impostos. No entanto, se não foste residente o ano todo, este valor é ajustado proporcionalmente. Por exemplo, se entraste no Canadá a 1 de setembro, o teu limite isento seria de $5.013,70 (calculado como ($15.000 / 365 dias) × 121 dias).

Refundable tax credits são benefícios fiscais a que quase toda a gente tem direito. Teres ou não direito a eles depende dos teus rendimentos, do teu agregado familiar e da tua situação pessoal. Podes (e deves) pesquisar se és elegível, mas recomendamos que uses uma tax clinic no teu primeiro ano. Além de te ajudarem a preencher o formulário, eles sabem exatamente a que tax credits tens direito, porque o governo não te vai informar automaticamente. Tens de ser tu (ou a tax clinic) a perceber a que benefícios tens acesso.

Existem tax credits federais, disponíveis para toda a gente a viver no Canadá, assim como provinciais, exclusivos da província onde vives e trabalhas. Alguns deixam de existir, outros são criados, e há aqueles que simplesmente mudam de nome. Por isso, é importante estares atento às atualizações anuais. Se mudares de província, alguns tax credits provinciais podem deixar de se aplicar. Verifica sempre as regras da tua nova província.

No nosso caso, em Ontário, tínhamos direito a:

  • GST/HST credit, pago quatro vezes por ano, é um tax credit para famílias com rendimentos baixos ou modestos, ajudando a compensar os custos do GST e HST (o equivalente ao IVA em Portugal). O valor depende do teu rendimento e do tamanho do agregado familiar.
  • Canada Carbon Rebate (que foi substituído pelo Climate Action Incentive Payment) também é pago quatro vezes por ano e visa ajudar as famílias com os custos associados aos impostos sobre a poluição. Este credit varia consoante a província, mas em Ontário os valores são ajustados anualmente.
  • Canada Workers Benefit é pago de uma só vez e destina-se a trabalhadores com baixos rendimentos. É uma forma de complementar o salário de quem ganha menos, e o valor depende do teu rendimento anual.
  • Ontario Trillium Benefit é específico de Ontário e ajuda as famílias com custos de energia e alojamento. Atenção: Neste caso, é importante preencheres corretamente o valor da tua renda quando fizeres a declaração de impostos. No nosso caso, pediram-nos os recibos de renda um ano depois, por isso guarda sempre essa documentação.

Anos completos

A menos que comeces a trabalhar exatamente a 1 de janeiro depois de te mudares para o Canadá, o teu primeiro ano fiscal vai ser sempre incompleto. No segundo ano (e seguintes), já não deverás poder usar uma tax clinic, mas se prestaste atenção ao preenchimento do ano anterior, vais ver que o processo é mais simples do que parece.

A nossa recomendação é que uses a WealthSimple (versão gratuita), que é intuitiva e guia-te passo a passo. O nosso caso era simples: só tínhamos dois tipos de rendimento: por conta de outrem e juros bancários. Para isso, só precisámos do T4 do empregador e dos T5 dos bancos. Se seguiste tudo o que escrevemos na secção do Primeiro Ano, já tens acesso ao site da CRA com todos os teus dados. A maior parte da tua informação pessoal e dos rendimentos deverá ser preenchida automaticamente.

Ao preencheres a declaração, indica quais os tax credits que pretendes receber. Confirma se ainda tens direito aos que recebeste no ano anterior e verifica se és elegível para novos. Não tentes enganar o Estado, porque eles vão verificar e, se houver inconsistências, vais ter problemas. Se continuares a viver no Canadá, preencher os impostos nos anos seguintes vai ser semelhante ao ano anterior, a menos que a tua situação mude (novos rendimentos, mudança de província, etc.).

Depois de deixar o Canadá

Nós optámos por não ficar no Canadá após o fim do nosso Work and Holiday Visa. Preencher os impostos neste caso é um pouco como no primeiro ano, já que só trabalhamos alguns meses. Mas há uma complicação: tens de preencher tudo em papel. Parece ridículo, mas é a realidade.

Se não te sentires confortável, podes contratar alguém para tratar disto por ti. Nós não queríamos pagar, por isso pesquisámos e usámos um pequeno truque, truque esse que é simples, mas requer atenção: Usa o software da WealthSimple como se tivesses passado o ano inteiro no Canadá. Depois, copia a informação gerada para os PDFs, mas ajusta os dados para refletir que saíste do país. São só algumas caixas a preencher, mas é importante não te esqueceres desse detalhe.

No total, tivemos de preencher 7 documentos cada um:

  • Form ON42 (Imposto Provincial de Ontário),
  • T1 (Income Tax and Benefit Return para não residentes),
  • Schedule B (Créditos fiscais federais não reembolsáveis),
  • Schedule A (Declaração de rendimentos mundiais),
  • Schedule 10 (Prémios de Employment Insurance e PPIP),
  • Schedule 8 (Contribuições para o Canada Pension Plan),
  • Schedule 2 (Transferências de créditos do cônjuge).

Depois de tudo preenchido, imprimimos e enviámos por correio registado para o endereço da CRA indicado no formulário T1. Recomendamos que uses um serviço com tracking e que guardes a prova de envio, que é a tua garantia de que tudo chegou ao destino. Podes fazer download de tudo o que precisas aqui.

Se achares tudo isto demasiado complicado, que efetivamente é, recomendamos que uses um contabilista.

8. EI e CPP

Quando trabalhaste no Canadá, viste que te descontavam EI (Employment Insurance) e CPP (Canada Pension Plan) do salário.

EI (Employment Insurance) – Seguro de Desemprego

É um seguro que cobre desemprego, licença parental, ou doença. Basicamente, se ficasses sem trabalho no Canadá, podias receber um subsídio temporário.

CPP (Canada Pension Plan) – Reforma Canadiana

É a pensão pública canadiana, tipo a Segurança Social em Portugal. Todos os trabalhadores descontam, e mais tarde (aos 65 anos) podem receber uma pensão mensal. Se descontaste durante o tempo que estiveste no Canadá, tens direito a uma parte da reforma canadiana quando atingires a idade da reforma (65 anos). No entanto, se como nós saíste do Canadá, o valor vai ser muito baixo, e é calculado com base nos anos que contribuíste.

Se voltares a trabalhar no Canadá no futuro, os descontos acumulam. Se não voltares, o que já descontaste fica lá, e quando chegares aos 65 anos, podes pedir uma pensão parcial. Mas não esperes muito, é mais um “bónus” do que uma reforma completa.

Quanto mais anos descontares e quanto mais ganhares, maior será a tua pensão futura. Se ficares no Canadá até à reforma, podes receber o valor máximo (em 2026, o máximo é cerca de $1.306/mês). Descontos para a reforma são tax-free, e ao maximizares contribuição é dinheiro que acumulas sem pagar impostos. Mas se saíste, não vais maximizar nada. O que descontaste conta para uma pensão mínima no futuro, mas não é algo que mude a tua vida.

Guarda os teus T4s (os documentos que recebeste dos empregadores), pois vais precisar deles se quiseres pedir a pensão no futuro. Se quiseres saber quanto tens direito, podes pedir um Statement of Contributions ao Service Canada (online ou por telefone). Eles enviam-te um extrato com tudo o que descontaste.

9. Encontrar Trabalho

A procura de emprego em Toronto não foi muito diferente de outras experiências que tivemos noutros países. A Bárbara continuou a trabalhar remotamente para a mesma empresa do Reino Unido, por isso não precisou de procurar um novo emprego no Canadá. Já o João teve de começar a procurar trabalho assim que chegámos.

Procurou online, registou-se em agências de emprego e também tentou entregar currículos em mãos. No entanto, devido à pandemia, muitas agências ainda estavam com os escritórios fechados. Cinco dias depois de chegarmos a Toronto, foi contactado por um dentista que procurava um rececionista para a clínica. Ligou de imediato, o que surpreendeu positivamente o dentista, e marcou a entrevista para a segunda-feira seguinte. No dia após a entrevista, teve um dia de experiência remunerado. Depois de demonstrar as suas habilidades e confiança, foi contratado na quarta-feira.

Teve alguma sorte por ter sido contactado, mas também se destacou pela sua experiência e atitude durante o dia à experiência e na entrevista. O dentista mencionou que muitas pessoas não demonstram interesse imediato ou não respondem prontamente aos contactos. Por isso é importante mostrar interesse e entregar currículos pessoalmente (mesmo que as candidaturas sejam online), já que pode fazer toda a diferença.

A determinação e o esforço em procurar ativamente trabalho fazem a diferença. Aproveita todas as oportunidades para demonstrar as tuas habilidades e competências, e não desanimes com eventuais rejeições. A procura de emprego é desafiante, mas no final, vale a pena.

Atualmente, o Canadá, especialmente em cidades como Toronto, é um grande desafio para quem procura trabalhos não qualificados ou com salário mínimo. O aumento do número de estudantes internacionais nos últimos anos criou muita concorrência nesse tipo de empregos, e nem sempre as condições oferecidas são as melhores. A partir de 2024/2025, o governo canadiano começou a impor limites mais apertados aos vistos de estudante e ao número de horas que estes podem trabalhar, mas o impacto real dessas medidas no mercado de trabalho ainda vai demorar algum tempo a sentir-se.

10. Sistema de Saúde

Felizmente, nunca tivemos de recorrer ao sistema de saúde enquanto estivemos no Canadá. Ainda assim, convém perceber bem como tudo funciona para não seres apanhado de surpresa. À entrada no país, tens obrigatoriamente de ter seguro de viagem, exigido como condição do WHV. Este seguro cobre apenas emergências médicas como acidentes, internamentos urgentes ou situações graves. Não cobre consultas de rotina, check-ups ou problemas não urgentes, por isso não substitui um sistema público de saúde.

Saúde pública em Ontário (OHIP)

Em Ontário, o sistema público chama-se OHIP (Ontario Health Insurance Plan). Quem está num WHV pode ter acesso, mas não é imediato.

Depois de viveres na província durante um período mínimo (153 dias de residência efetiva), e desde que tenhas uma Work Permit válida e emprego full time, podes pedir o cartão de saúde. No nosso caso, quando esse período terminou, foi simplesmente ir a um ServiceOntario com os documentos necessários e pedir o cartão. A partir daí, os cuidados médicos essenciais passam a estar cobertos pelo sistema público. O cartão é provincial, mas é válido noutras províncias, de forma semelhante ao Cartão Europeu de Seguro de Doença dentro da União Europeia.

A validade do cartão de saúde está ligada à validade do teu visto. Quando o visto termina, a cobertura termina também.

Médico de família e a realidade do sistema

Depois de receberes o cartão, podes pedir para te ser atribuído um médico de família através do sistema provincial. Na teoria, isto garante acompanhamento a longo prazo. Na prática, a realidade é outra. Durante o ano e meio que estivemos no Canadá, recebemos várias cartas a pedir desculpa por ainda não terem conseguido encontrar um médico de família. Isto diz muito sobre o estado do sistema: não é melhor do que o SNS em Portugal e, em muitos casos, é claramente mais lento no acesso a cuidados continuados.

Enquanto não tens médico de família (ou mesmo tendo), podes recorrer às walk-in clinics. São clínicas onde podes aparecer sem marcação e, apresentando o cartão de saúde, ser atendido gratuitamente para problemas não urgentes. É a solução mais comum para quem precisa de uma consulta no dia a dia.

11. Carta de Condução

Se o teu objetivo for conduzir no Canadá, é necessário ter uma carta de condução válida. Com um visto de turismo, basta pedir uma carta internacional no IMT, válida por um ano. No entanto, se estiveres num Working Holiday Visa (WHV) e pretenderes conduzir por vários meses, as regras são mais rigorosas do que na Austrália. Em Ontário, por exemplo, após dois meses, passa a ser exigido converter a carta portuguesa para a local, e em British Columbia após três meses.

Se a intenção for alugar um carro, a carta internacional é a opção mais simples. Também é possível traduzir a carta portuguesa por um tradutor certificado. Se comprares um carro, ambas as opções são válidas, mas atenção: a carta internacional tem validade de um ano, enquanto a tradução é válida até à data de expiração da carta original (que, presumivelmente, será superior a um ano).

Converter a Carta Portuguesa em Ontário

Se estiveres num WHV, podes (e deves) converter a tua carta portuguesa. Em Ontário, o processo é o seguinte:

  1. Pedir o Modelo 13 ao IMT
    • Podes fazer o pedido ainda em Portugal ou já no Canadá. Se não o fizeres presencialmente, junta uma autorização com os dados de quem o vai fazer por ti.
    • Deves incluir uma cópia da carta de condução e do Cartão de Cidadão.
    • O certificado emitido pelo IMT deve ser traduzido oficialmente. A tradução deve ser feita por um tradutor certificado pela ATIO (podes pedir uma cópia digital, mas precisas do original com selo branco).
    • A tradução tem a validade da carta, mas para o pedido de equivalência tens um limite de 6 meses.
  2. Estudar o Código da Estrada Canadiano
    • A conversão não é automática: vais ter de fazer um teste teórico (G1) e um teste prático (G).
    • Se passares, manténs os anos de experiência da carta portuguesa (ex: 10 anos de carta em Portugal = 10 anos de carta no Canadá).
  3. Fazer o Teste G1
    • Dirige-te a um DriveTest com os seguintes documentos:
      • Passaporte,
      • Work Permit,
      • Prova de morada (ex: carta do banco ou fatura do telemóvel),
      • Certificado original do IMT,
      • Carta de condução portuguesa,
      • Traduções do certificado e da carta.
    • Não é necessária marcação prévia.
    • O teste G1 é teórico (40 perguntas em 40 minutos: 20 sobre sinais e 20 sobre regras de trânsito). Só podes errar 4 por secção.
    • Custo: $106 (inclui emissão da carta, válida por 5 anos).
  4. Fazer o Teste Prático (G)
    • Se tiveres mais de 2 anos de experiência, podes passar diretamente para o teste do G (carta completa).
    • Custo: $91.25.
    • O teste demora cerca de 20 minutos e foca-se no comportamento em highways (autoestradas), além de atenção a sinais, stops e peões.
    • Atenção: No Canadá, conduzir devagar também pode levar a reprovação (ex: 40 km/h num limite de 50 km/h).
    • Não é necessário fazer estacionamento paralelo, mas podem pedir para estacionares de frente/trás e fazer um 3-point turn.
  5. Se Reprovares no Teste G
    • Se reprovares, tens de fazer o teste G2 (mais simples, sem highway, mas com estacionamento paralelo).
    • Se passares no G2, a data da carta passa a ser a da G2 (perdes os anos de experiência portuguesa).
    • A única restrição com G2 se fores maior de idade é álcool zero (0g no sangue).
    • Se quiseres podes depois fazer o G outra vez.
  6. Manter a Carta Portuguesa
    • Seja qual for o resultado, manténs a carta portuguesa. Se decidires não ficar no Canadá, as seguradoras portuguesas continuam a reconhecer a tua experiência original.

Para o exame prático, precisas de um carro. Podes pedir emprestado a um amigo ou contactar uma escola de condução (muitas oferecem packs com aulas e carro para o exame). Alugar um carro com G1 não faz sentido porque não podes conduzir sozinho, mas podes fazer o aluguer com a carta internacional.

A validade da carta é independente do visto. A validade é de 5 anos a partir da data do exame G1, e é essa validade que se vai manter até teres que a renovar. No total gastámos cerca de $342 no processo, escola de condução e tradução certificada. Não incluímos neste valor o certificado do IMT e portes de envio.

Converter a Carta Portuguesa províncias

Não podemos contar a nossa experiência nas províncias onde não vivemos, mas pesquisámos o processo de conversão da carta. A par de Ontário, New Brunswick e PEI têm um modo de conversão mais complexo. As restantes províncias têm processos mais simples e baratos, e é sobre essas que deixamos um pequeno resumo das vantagens e documentos necessários para cada uma.

Alberta

  • Vantagens:
    • Sem teste teórico se tiveres +2 anos de experiência.
    • Teste prático direto para Class 5 (equivalente ao G).
    • Custo mais baixo que Ontário.
  • Documentos necessários:
    • Carta portuguesa + tradução oficial (por tradutor certificado).
    • Certificado do IMT (Modelo 13).
    • Passaporte + Work Permit.
    • Prova de morada (ex: fatura ou contrato de aluguer).

British Columbia (BC)

  • Vantagens:
    • 90 dias para usar a carta internacional (vs. 60 dias em Ontário).
    • Sem teste teórico se tiveres +2 anos de experiência.
    • Teste prático direto para Class 5 (sem fases intermediárias como G1/G2).
  • Documentos necessários:
    • Tradução oficial (certificada pela STIBC).
    • Certificado do IMT.
    • Prova de morada em BC.

Quebec

  • Vantagens:
    • Sem testes se tiveres +2 anos de experiência (apenas documentação).
    • Processo mais rápido que Ontário.
  • Documentos necessários:
    • Tradução oficial (em francês ou inglês, por tradutor certificado).
    • Certificado do IMT.
    • Prova de morada.
  • Nota: Sinais em francês, mas o processo é simples.

Nova Scotia

  • Vantagens:
    • Sem teste teórico se tiveres +2 anos de experiência.
    • Teste prático menos rigoroso que Ontário.
  • Documentos necessários:
    • Tradução oficial + certificado do IMT.

Manitoba

  • Vantagens:
    • Processo semelhante a Alberta, sem burocracia excessiva.
    • Teste prático direto se tiveres experiência.
  • Documentos necessários:
    • Tradução oficial + certificado do IMT.

Saskatchewan

  • Vantagens:
    • Sem fases intermediárias (como G1/G2 em Ontário).
    • Teste prático direto para Class 5 se tiveres +2 anos de experiência.
  • Documentos necessários:
    • Tradução oficial + certificado do IMT.

12. Lojas de roupa e supermercados

No Canadá, os preços nas lojas são apresentados sem IVA, o que pode causar confusão. Em Ontário, o imposto é o HST (13%), combinação de imposto federal + provincial, mas este varia de província para província. Alguns produtos e serviços estão isentos de imposto, como a maioria dos alimentos básicos nos supermercados (embora batatas fritas de pacote e chocolates paguem imposto), medicamentos, serviços médicos não estéticos, transportes públicos e outros. Sempre que mencionarmos preços, referimo-nos ao valor sem impostos.

Roupa

Quando chegámos ao Canadá, trouxemos o nosso casaco mais quente, um par de botas, gorro e cachecol. No entanto, as luvas e os casacos que tínhamos não estavam preparados para as temperaturas canadianas. Mesmo que já nos tivessem protegido bem na neve da Serra da Estrela, o frio no Canadá é diferente. Se não tens roupa preparada para temperaturas negativas, compra no Canadá. Em Portugal, casacos e artigos para frio extremo são raros e caros. Não precisas de trazer toda a tua roupa, mas se tiveres espaço, traz o que puderes, porque a roupa no Canadá é ligeiramente mais cara e não há lojas como a Primark.

Para o verão, não te esqueças de trazer roupa leve. Embora o inverno seja rigoroso, o verão pode ser bastante quente.

Algumas das marcas mais conhecidas para casacos de inverno são Canada Goose, Pajar e Zero. São mais caras, mas têm excelente qualidade e indicam a temperatura mínima que suportam. Para cidades como Toronto e Vancouver, são mais do que suficientes, mas também são adequadas para cidades mais frias, como Montreal, Winnipeg e Edmonton. A chave para te manteres quente é usar camadas.

A nossa dica é a Winners: encontras roupa de qualidade e de marcas conhecidas a preços muito mais baixos. O único problema é que podem ter poucas unidades de cada modelo e tamanhos. Por exemplo, o casaco do João, um Pajar preparado para -30°C, custa $750 na loja da marca, mas na Winners ficou por apenas $260. Já a Bárbara teve mais dificuldade em encontrar um casaco no seu tamanho com indicação de temperatura, mas acabou por encontrar um Zero preparado para -40°C na Hudson’s Bay por $158 (o preço original era de $250).

Para botas, o João trouxe umas da Decathlon, que já tinha usado na Serra da Estrela. São quentes e resistentes à chuva e neve, perfeitas para o dia a dia. Só sentia frio se ficasse parado muito tempo, mas com umas meias de inverno adequadas, esse problema resolveu-se. A Bárbara não tinha botas adequadas, por isso comprou umas Dr. Martens em Toronto. Não são as botas mais quentes, mas para a cidade são suficientes, especialmente com umas boas meias.

Para gorros, cachecóis, luvas e roupa interior térmica, a Winners é novamente uma boa opção para encontrar artigos de qualidade a bom preço. Para coisas mais básicas, podes ir ao Dollorama, mas atenção aos tamanhos, porque não aceitam trocas.

Supermercados e outras lojas

O Dollorama é uma das melhores lojas para comprar essenciais como utensílios de cozinha e outros artigos do dia a dia. O IKEA é uma boa opção, mas no Canadá é ligeiramente mais caro do que na Europa, porque os produtos são importados. Mesmo assim, foi onde encontrámos a melhor relação qualidade/preço para móveis como cama e colchão.

Outra loja a ter em conta é a Homesense, que pertence ao mesmo grupo da Winners, mas foca-se em artigos para casa. Embora não sejam propriamente baratos, a qualidade é superior. Por exemplo, comprámos toalhas de banho lá, com melhor qualidade e ao mesmo preço que no IKEA.

Se gostas de supermercados como o Lidl ou o Aldi, vais sentir saudades, porque não existem no Canadá. No entanto, há supermercados de cadeias maiores que oferecem preços mais baixos por não terem secções de talho e outros serviços. As principais cadeias são Loblaws, Metro e Farm Boy (este último mais premium), equivalentes ao Continente, Jumbo e Intermarché. Para opções mais económicas, tens o No Frills (pertence à Loblaws), FreshCo (Metro) e Food Basics. Usámos todos, mas o No Frills era o mais próximo de casa e o que mais utilizámos. Durante a nossa viagem descobrimos outras opções, mas uma das que mais gostámos foi a Super C no Quebec.

Para medicação, não há as típicas farmácias europeias, mas alguns supermercados têm farmácias no interior. Também há lojas específicas de saúde e beleza, como a Shoppers Drug Mart e a Rexall. Se precisares de medicação essencial, lembra-te que o Paracetamol tem um nome diferente, Acetaminophen (a marca mais conhecida é Tylenol) e o Ibuprofeno é vendido como Advil. Existem também marcas brancas, por isso verifica sempre o ingrediente ativo na embalagem.

13. Custo de Vida em Toronto

Os custos variam de pessoa para pessoa, mas também podem variar imenso consoante estares sozinho ou com um companheiro/amigos. Independentemente disso, achamos que é importante mostrar quanto é que gastámos durante a nossa estadia em Toronto.

Vamos incluir praticamente todos os custos que tivemos desde que aterrámos até termos começado a viagem. Isto implica quatro períodos:

  • Os primeiros 15 dias no AirBnB quando chegámos
  • O tempo que vivemos no nosso apartamento – cerca de 16 meses (492 dias)
  • O tempo que vivemos no segundo apartamento – 45 dias
  • A fase de construção da carrinha para a viagem – 18 dias

Algumas coisas que comprámos durante a nossa estadia em Toronto também deram para a viagem, como por exemplo roupa de cama e almofadas, consumíveis de casa como detergentes e também alguma comida. Deixamos esta nota por uma questão de precisão e transparência, porque estes valores mal interferem com o total.

Acomodação: Inclui o AirBnB, rendas e serviço de Internet fixa. Inclui também a semana que pagámos em Kincardine enquanto construíamos a carrinha.

Atividades e viagens: Os maiores custos foram as nossas viagens a Nova Iorque e Detroit, assim como bilhetes para a CN Tower e outras atividades e acessos nas Niagara Falls. Não incluímos os transportes para Niagara e passeios em Ontário, estando essas despesas na categoria transportes.

Casa: Tudo o que é preciso para casa como mobília, louça e consumíveis. Só gastámos $850 em mobília porque tivemos muita coisa gratuita do nosso prédio como o sofá e vários eletrodomésticos, por isso este valor deveria ser superior.

Comida: Supermercado, refeições fora, takeaway e bares.

Eletrónica: Inclui tudo o que é material eletrónico. Deixámos de fora uma grande fatia (cerca de $6800) porque achamos que não fazia sentido incluir, por não ser especifico de Toronto:

  • O João precisava de um portátil novo, portátil esse que usa ainda hoje depois de voltarmos para Portugal, mais de 3 anos depois;
  • Comprámos vário material fotográfico: uma Insta360 X3, uma Fujifilm X-T2 usada e algumas lentes;
  • Ambos trocámos de telemóvel;
  • Acessórios para tudo isto;

Tudo isto foram upgrades ou novas aquisições que em nada tinham a ver com o viver em Toronto. Incluímos sim algumas coisas que precisámos por nos termos deslocado, como por exemplo um disco externo. Também precisámos de monitores, mas foram-nos oferecido pelos vizinhos do nosso prédio.

Roupa: O maior gasto foram os nossos casacos e botas, cerca de $800. Se não fosse o inverno rigoroso, teríamos gasto menos.

Telemóvel: Mensalidade e ativação dos tarifários móveis. O Canadá foi sem dúvida o pais mais caro nesta categoria.

Transporte: Inclui praticamente todos os transportes públicos e o passe das bicicletas da cidade. Como só comprámos o carro para a viagem, não vamos incluir os custos associados de quando ainda morávamos em Toronto, à exceção do combustível e estacionamento. Também deixámos de fora os custos associados à conversão da carta de condução, porque tal como o carro, só o fizemos por causa da viagem. Os restantes custos farão parte da road trip. Também não incluímos os voos para Portugal (já falado na página anterior), voos e todas as despesas associadas às nossas viagens a Nova Iorque e Detroit.

Outros: Tudo o que não encaixa nas categorias anteriores

Deixamos-te com dois gráficos com o valor total que gastámos neste período de tempo, 569 dias, pouco mais de um ano e meio. O primeiro inclui os valores totais e percentagem por categoria, com as nuances que referimos acima. O segundo inclui o valor médio mensal por pessoa. Para calcular dividimos cada categoria pelo número de meses equivalente.

As nossas maiores despesas foram:

  • Alojamento – $1.160 por mês (58%): A nossa renda era de $2500 por mês com todas as despesas incluídas exceto Internet fixa, o que deveria trazer o valor médio mensal um pouco mais de $1250 por mês. A diferença deve-se ao facto da renda do segundo apartamento ser mais baixa e já incluir Internet, durante a construção do carro (cerca de 3 semanas) só gastámos $350, e também porque a nossa senhoria quebrou o contrato, e por isso teve que nos pagar um mês de renda, valor esse que deduzimos do total.
  • Alimentação – $450 por mês (23%): As despesas de supermercado são metade deste valor, mas como gostamos de comer fora e experimentar novas gastronomias, este valor podia facilmente ter sido reduzido para cerca de $325 por mês.
  • Transporte – $108 por mês (5%): Apesar de termos feito alguns passeios por Toronto e arredores, o maior custo foi do João para ir trabalhar, já que a Bárbara estava em Teletrabalho. No entanto, ambos fizemos várias viagens nos transportes da cidade para passear, assim como nalguns comboios para os arredores e fomos 3 vezes às Niagara Falls. Inclui também as várias vezes visitámos as Toronto Islands de ferry, assim como os dois passes anuais para as bicicletas da cidade ($118 cada). Toronto é a única cidade onde o passe mensal fica mais caro do que pagar viagens individuais, 2x por dia, 5x por semana. No final da nossa estadia também passou a ser possível usar os transportes da cidade e apanhar um comboio regional (Go Train) e só pagar o bilhete mais caro. Por causa disto o valor poderia ser ligeiramente menor.
  • Casa – $87 por mês (4%): Nada de especial a apontar aqui, só mesmo que achámos este tipo de produtos mais caros do que na Austrália e UK, mas ao nível de Portugal.