Viajar no Canadá

O Canadá, tal como os EUA, tem uma cultura de van life e overlanding forte. É superior à portuguesa, mas inferior à australiana, o que não é de admirar com considerando o clima australiano. Ainda que seja mais comum do que em Portugal, se disseres a um canadiano que vives no carro e que fazes road trips de vários meses é mais surpreendente para um ele do que para um australiano.

Existem várias opções para viajar pelo país, mas, na nossa experiência, comprar um carro acaba por ser a melhor escolha se o objetivo for viajar durante vários meses, e é a forma mais fácil se estiveres num WHV. Se estiveres no país como turista, a melhor opção continua a ser carro de carro, mas certamente que vai ser mais fácil e simples alugar em vez de comprar. Ao longo desta página vamos explicar o porquê, que tipo de carro faz mais sentido comprar e quais foram todos os custos que tivemos.

A forma como vais viajar pelo Canadá vai depender do tempo e do dinheiro disponíveis, bem como das regiões que queres visitar. Ao contrário da Austrália, não conhecemos muitos backpackers durante a nossa viagem no Canadá, mas conhecemos e falámos com várias pessoas, e também pesquisamos sobre o assunto para te poder ajudar a escolher a melhor forma para viajares.

Uma forma de poupares dinheiro em combustível no Canadá (e nos EUA) é abasteceres em bombas dentro das reservas índias, já que estas tendem a ser bem mais baratas (não pagam imposto). Muitas bombas também fazem um preço mais baixo se pagares com dinheiro ou cartão de débito. No Canadá tínhamos cartão de débido canadiano, mas o Revolut é considerado um cartão de débito, por isso não deverás ter problemas em usa-lo e obter o desconto. Deves no entanto indicar na máquina (se automática) ou à pessoa que queres pagar debit.

  1. Porquê comprar um carro (e alternativas)
  2. Carta de condução
  3. Procurar um carro usado
  4. Seguro Automóvel
  5. Comprar (e vender) um carro em Ontário
  6. A nossa minivan – Toyota Sienna 3.5L V6
  7. Conversão
  8. Distâncias
  9. Vida selvagem
  10. Clima
  11. Road Trip
  12. Custos

1. Porquê um carro (e alternativas)

Nós não precisávamos de um carro quando morávamos em Toronto, e recomendamos que não o faças se fores viver para o centro de uma grande cidade. Comprámos o nosso um mês e meio antes de iniciarmos a nossa viagem, mas tivemos a sorte de ter podido usar o estacionamento para visitantes do nosso prédio e do trabalho do João, caso contrário teríamos que pagar um balúrdio para o estacionar.


Boleia: Andar à boleia não é para todos, e também ao contrário da Austrália, foi algo que não vimos, mas não deixa de ser uma opção… Na Austrália, era comum pessoas que não se conheciam de lado nenhum fazerem amizade e viajarem juntas em parte ou na totalidade do percurso. É uma forma mais económica de viajar, sem te preocupares com custos inesperados, mas obviamente estás sujeito à disponibilidade do condutor. Nós queríamos ter a liberdade de escolher onde ir e quando ir, por isso esta opção estava fora de questão. Também pode implicar algum risco, já que não conheces o condutor.


Transportes Públicos: Esta opção é mais adequada para zonas com maior densidade populacional, mas estás sujeito a poucos comboios e autocarros. Grandes cidades tem sistemas de transporte publico razoáveis, mas nem todas. Halifax é um exemplo de uma grande cidade, capital de província, que só tem autocarros e não são grande coisa. Toronto é também praticamente a única cidade que tem comboios regionais razoáveis. Entre cidades, praticamente só tens autocarros de longo curso ou avião. A única exceção com ligação ferroviária razoável é o corredor Toronto – Ottawa – Montreal – Québec, mas é caro e não é particularmente rápido. Vancouver por exemplo têm vários autocarros que te levam a várias pontos de partida de caminhadas e zonas de natureza nas redondezas (Parkbus, Whistler, North Shore, etc).

Para zonas mais remotas vai ser difícil usares transportes públicos. O Banff National Park é uma das poucas zonas que tem um bom sistema de autocarros. Podes sempre juntar transporte público com boleias e/ou aluguer de carro. Usar transportes públicos é uma das opções mais económicas, mas tem limitações significativas.


Aluguer: Se estiveres no Canadá em turismo, alugar um carro é a opção mais sensata porque permite-te alguma flexibilidade sem te preocupares com manutenção e avarias. Se estiveres por mais tempo, como nós estivemos num visto Working Holiday, pode compensar comprar um carro, mas existem várias restrições para quem não é residente.

Existem várias empresas de aluguer com diversas opções disponíveis, como carros, vans, 4×4 e caravanas. Se o teu objetivo for dormir no carro (o que recomendamos vivamente), deves optar por uma caravana ou uma van. Alugar um carro não difere muito de fazê-lo noutro país, mas recomendamos que pagues um extra pelo seguro contra danos, porque qualquer pequeno incidente pode sair-te caro! Verifica se o teu cartão de crédito (se tiveres) inclui seguro CDW/LDW, porque muitas vezes já cobre danos no aluguer e pode evitar que pagues pelo seguro da empresa, o que costuma ser caro.

Deves ter cuidado se a tua intenção for fazer off-road, pois mesmo quando alugares um 4×4, isso não significa que o aluguer permita saíres do alcatrão. A grande maioria proíbe e tem telemetria para controlo.


Comprar Carro: Permite-te ir onde quiseres e quando quiseres! Vais ter que te preocupar com a compra e venda, manutenção, impostos e outras questões, mas acreditamos que esta seja o ideal para viagens mais longas. Se, como nós, já tiveste um carro, tudo com que vais ter que lidar no Canadá pode ser muito diferente do que terias que lidar em Portugal (ou noutro país), mas vamos explicar-te tudo mais abaixo. Se estás a pensar comprar um carro para a viagem, temos um guia dedicado a ajudar-te a escolher o veículo certo e perceber quais as especificações técnicas mais importantes. Como esta informação é transversal a qualquer destino, decidimos centralizá-la para evitar repetição.

2. Carta de condução

Para conduzires no Canadá vais precisar de ter uma carta de condução válida. Se estiveres no país como turista num eTA, ou apenas quiseres viajar algumas semanas, a forma mais simples é obter uma carta internacional no IMT antes de sair de Portugal.

Se, como nós, estiveres num WHV e quiseres conduzir durante vários meses, a carta internacional (válida por um ano) pode ser ser uma opção, mas não é a nossa recomendação se quiseres comprar carro. Detalhamos passo a passo de como podes obter carta Canadiana se viveres em Ontário, assim como informação sobres as outras províncias, temos tudo no ponto 11 da página anterior, Viver e Trabalhar no Canadá.

3. Procurar um carro usado

O Canadá, tal como a Austrália e os EUA, está sub-dividido, e cada província tem as suas regras e matrículas. É possível comprar um carro com a matrícula de uma província e vender noutra, mas vais ter que fazer uma inspeção e mudar as matrículas, e o processo de inspeção e registo varia muito entre províncias. Para contornar esta situação só mesmo se terminares a viagem na mesma província onde começaste.

Não há propriamente uma província melhor do que outra para comprar carro, já que todas têm algum tipo de inspeção e seguro obrigatório. Dito isto, há algumas nuances: Alberta e BC têm mais oferta de carros off-road, Ontário tem o maior mercado e preços mais competitivos mas os seguros são caros, e praticante em todas elas vais ter o problema da ferrugem devido ao uso do sal para derreter a neve.

O Canadá é um destino com menos backpackers do que a Austrália, por isso é mais provável comprares um carro a um particular ou num stand. Ainda assim, se procurares carrinhas e minivans já convertidas, há uma probabilidade de ser de um backpacker. Isto é importante porque a maioria não cuida dos carros, e muitas vezes nem fazem a manutenção básica.

Dito isto, o publico geral também consegue ser muito descuidado, ainda mais num país como o Canadá onde as inspeções têm as suas nuances e não são anuais. Regra geral, os carros só são sujeitos a uma inspeção quando são vendidos, e essa obrigatoriedade está do lado do comprador. Isto implica que um carro pode andar anos sem uma única inspeção, e desde que ande, está “bom”.


Dicas para comprar um carro usado

  1. Define um orçamento
    Deves determinar quanto estás disposto a gastar, incluindo o preço de compra, impostos, seguro e possíveis reparações. Nós tínhamos um orçamento de $10.000 para a compra, mas gastámos $8.500 no carro e cerca de $850 em reparações.
  2. Pesquisa marca e modelo
    Procura carros que atendam às tuas necessidades, lê análises e percebe os custos típicos de manutenção. A nossa recomendação é escolher algo comum, porque é mais fácil arranjar peças, mecânicos e os maiores problemas são mais conhecidos.
  3. Verifica o histórico e documentação
    Pede o VIN (Número de Identificação do Veículo) e usa-o para obter um relatório histórico. Vais saber se já teve acidentes, problemas de registo ou outros detalhes relevantes. Confere também se o VIN do carro coincide com o dos documentos e se o vendedor tem o registo em ordem para o poder vender.
  4. Inspeção e test drive
    Se possível, contrata um mecânico para uma inspeção pré-compra (foi o que fizemos). Se não for opção, faz uma inspeção básica tu próprio (o que fizemos noutros países): sinais de desgaste, ferrugem profunda e eventuais problemas mecânicos. Depois faz um test drive e presta atenção a sons anormais, vibrações e ao comportamento em estrada.
  5. Histórico de manutenção
    Pede os registos de manutenção, quando existem. Um histórico organizado é um excelente indicador de que o carro foi cuidado ao longo dos anos.
  6. Não tomes decisões precipitadas
    Se algo não te parece bem, seja o carro, o vendedor ou o negócio em si, afasta-te. Há muitos carros usados e mais vale ser cauteloso. Ter um amigo ou familiar contigo ajuda, nem que seja para ter mais um par de olhos e uma opinião adicional.

4. Seguro Automóvel

Tal como em Portugal, no Canadá é obrigatório ter seguro contra terceiros. Vais precisar de ter carta de condução e morada da província onde vives, assim como conta bancária ou cartão de débito/crédito para pagamento mensal.

Existem várias seguradoras, mas recomendamos que uses uma corretora (broker). Nós optámos pela Brokerlink, e o seguro era com a Economical. A principal razão porque usamos a Brokerlink é que estes aceitam experiência e NCB (No Claim Bonus — anos de seguro sem acidentes) de outros países. Sempre tivemos carro (e seguro) desde 2012, em Portugal, Reino Unido e Austrália, e por isso apresentámos os documentos de todas as seguradoras com que já estivemos no passado. Se já tiveste seguro em Portugal (ou noutro país), podes e deves pedir estes documentos, em Inglês.

Os seguros no Canadá são muito caros, principalmente em Ontário, e ainda pior em Toronto. Estávamos a pagar $250 por mês, com 17 anos de carta e documentos a provar mais de 10 anos de seguros sem acidentes! Durante a nossa viagem não tínhamos propriamente uma morada fixa, por isso mudámos para casa de um amigo nosso que vivia no meio de nenhures, e mesmo assim só baixou para $170 por mês. Felizmente não te podemos contar a nossa experiência com a seguradora, dado que nunca estivemos envolvidos em qualquer acidente.

Tratámos de todo o processo por telefone e email, e só tivemos de os contactar para alterar a forma de pagamento. Muita atenção que no Canadá cancelar o seguro, mesmo que vendas o carro, não te dá direito ao estorno. Podes ter penalizações se cancelastes antes do fim do termo, não te devolvem parte da poupança do NCB se voltares mais tarde e não podes ficar sem seguro se continuares a ser proprietário do veículo. Nós só precisávamos de 10 meses (pouco mais de 8 de viagem e 1.5 antes da mesma), mas tivemos que pagar o ano completo.


As opções de seguro são semelhantes às de Portugal: Contra terceiros (mandatory liability), danos próprios (collision) e fogo/roubo (fire and theft).

  • Contra terceiros, é obrigatório e funciona de forma semelhante a Portugal: se tiveres um acidente com culpa e magoares alguém ou causares danos em propriedade (ex: postes, vedações, edifícios), o teu seguro paga. A grande diferença é que, em Ontário, esta cobertura não inclui automaticamente danos noutras viaturas. Para cobrir os danos no teu carro quando o outro condutor tem culpa existe uma cobertura separada chamada Direct Compensation – Property Damage (DC-PD). Funciona assim: se o outro condutor tiver culpa, é a tua seguradora que paga o arranjo do teu carro, desde que ambos os veículos estejam segurados em Ontário e a seguradora do outro condutor reconheça a culpa. Desde 2024 o DC-PD deixou de ser obrigatório, mas se não o incluíres, mesmo que o outro condutor tenha culpa, o teu carro não está coberto e és tu que assumes o prejuízo. É um sistema estranho para quem vem de Portugal (e até mesmo doutro país ou província), mas é assim que funciona em Ontário;
  • Danos próprios, tal como em Portugal, implica que se tiveres um acidente com culpa, a tua seguradora também cobre os danos na tua viatura;
  • Roubo/fogo, tal como o nome indica, para além de contra terceiros, também te protege caso o teu carro seja roubado, assaltado ou pegue fogo. Optámos por pagar este extra principalmente por incluir quebra de vidros, e a diferença era pequena.

Assistência em viagem deves contratar à parte, e o nosso conselho é que uses a CAA ou a Canadian Tire. A CAA é o equivalente ao ACP, mas existe uma por Província. Dado a nossa morada de residência, optámos pela CAA South Central Ontario, e pelo plano Plus. Ser membro implica algumas vantagens e descontos, mas só nos interessava a assistência em viagem, 4 no total e 200 km de distância cada, incluindo os Estados Unidos. Tal como o seguro, felizmente nunca tivemos que ativar, mas os $120 que pagámos foram um descargo de consciência.

5. Comprar (e vender) um carro em Ontário

Como não tivemos essa experiência, não podemos explicar como comprar um carro em todas as Províncias, mas é algo que podes facilmente pesquisar. Vamos explicar todo o processo de compra e venda de um carro, mas para a província onde o fizemos: Ontário. Nas outras deverá ser semelhante, mas deves confirmar essa informação! Tal como em qualquer outro país, podes comprar o carro a um vendedor privado ou num stand. Vamos explicar-te todo o processo e as diferenças, mas seja qual for a opção que escolhas, vais precisar de ter carta de condução da província onde vives, assim como de ter seguro contra terceiros e de uma inspeção.


Safety standards certificate

Ao contrário de Portugal, no Canadá não existem inspeções periódicas para viaturas ligeiras. No entanto, quando compras um carro usado, este precisa de uma inspeção (Safety standards certificate) para poder ser registado. Esta pode ser feita pelo vendedor ou por ti, mas a obrigatoriedade está do lado do comprador. Uma safety implica que o carro está em condições de andar na estrada, mas não garante que não tenha problemas.

Por norma, vais encontrar 3 opções no mercado de usados:

  • As is, literalmente, “como está”. Isto implica que não há garantias de que o carro esteja em condições de circular, e cabe-te a ti fazer a safety. Por esta razão são vendidos abaixo do preço do mercado, mas podem ser uma (má) surpresa. O carro até pode estar em condições, mas para carros mais velhos o vendedor não se quer dar ao trabalho de a fazer. Esta opção existe tanto com vendedores privados como com stands. O carro pode circular legalmente com matrícula válida, mas não pode ser transferido para o teu nome sem safety;
  • Safety for an extra, por norma os stands fazem a inspeção por um valor extra (entre $500 a $800). Torcemos um bocado o nariz a isto, ainda mais quando vimos carros com a parte de baixo coberta de ferrugem, que nunca passaria na inspeção. Não sabemos como é que o fazem, mas aconselhamos alguma cautela;
  • With safety implica que esta já foi feita. Um stand que já a tenha feito e não cobre mais por isso demonstra mais confiança, e o mesmo é válido com um particular, e foi esta a nossa escolha.

Se fores tu a fazer a safety, deves procurar uma oficina autorizada, e se houver necessidade de reparações, vão-te dar um orçamento e deves fazê-las para ter o certificado. Depois de emitido, este é válido por 36 dias.

Antigamente o certificado era em papel, e por isso relativamente fácil de ajustar, if you knwo what I mean. Quando vendemos o carro, o governo estava a transacionar tudo para online, e a oficina onde queríamos fazer, e que era na nossa confiança, ainda não tinha o sistema a funcionar. Certificados em papel ainda eram aceites, mas eles não tinham stock (o papel em si é providenciado pelo governo), por isso tivemos que procurar outra oficina. Apesar de nunca termos assistido a uma inspeção em papel, a versão digital era notoriamente mais rigorosa. Fizemos uma para facilitar a venda do carro, e esta demorou à vontade mais de uma hora, Eles verificam absolutamente tudo, até porque têm que tirar fotos com o tablet (fornecido pelo governo) e anotar todos os dados, espessura das pastilhas, discos, opacidade dos vidros, etc.

A ferrugem estrutural (algo a que não estamos habituados a lidar em Portugal) pode implicar chumbo, mas ferrugem superficial já vai depender do inspetor. O nosso tinha ferrugem superficial em várias zonas e passou antes de o comprarmos e quando o vendemos sem qualquer anotação.

Podes encontrar mais informação sobre a safety no site do governo: https://www.ontario.ca/page/safety-standards-certificate


Registar o carro

Se comprares a um particular em Ontário, deves ir a um Service Ontario e levar a seguinte documentação:

• Prova que tens seguro obrigatório;
• Carta de condução de Ontário;
• Safety Standards Certificate (se for digital já está no sistema);
• Used vehicle information package (UVIP) – fornecido pelo vendedor;
• Bill of Sale (faz parte do UVIP);
• Owner’s permit (equivalente ao DUA), com a “Application for Transfer” preenchida;
• A quilometragem do carro.

Deves preencher a bill of sale e a owner’s permit, juntar os restantes documentos, e pagar os impostos associados (13% do valor de venda em Ontário). Podes tentar escrever um preço mais baixo, mas não abuses porque eles têm um guia de preços, e certamente que não é legal… Por exemplo, se comprares um carro por $7.000 e o guia diz que o carro vale (wholesale) $6.000, se escreveres os $7000 pagas imposto sobre esse valor, mas se escreveres $6.000 ou menos, é sobre os $6.000 que vais pagar imposto. A tua última despesa é o registo do carro e das matrículas, $59.

Se comprares num stand, eles é que tratam do registo por ti. Quando fizeres o pagamento, pagas logo o valor do carro, imposto, matrículas e registo de uma vez. Atenção que os stands também te podem cobrar taxas extras.

As matrículas ficam associadas ao carro, mas também ao dono. Quando venderes o carro deves retira-las, e podes pô-las noutro carro que compres depois. No nosso caso trouxemo-las para Portugal como souvenir. Ao contrário de Portugal, não há qualquer imposto a pagar enquanto fores dono do carro, nem tens que fazer qualquer tipo de inspeção. Isto não invalida que possas ser multado se tiveres algo de errado ou ilegal no carro, e se provocares um acidente e o carro não tiver a manutenção em dia, podes ser considerado culpado.


Vender o carro em Ontário

Vender a nossa carrinha foi relativamente simples e, do ponto de vista administrativo, o processo é exatamente o mesmo de quando a comprámos, apenas com os papéis invertidos. Tivemos a sorte de que um amigo nosso a quis comprar, por isso não tivemos que perder tempo a colocar anúncios, marcar visitas ou lidar com potenciais compradores. Originalmente tínhamos planeado ficar um mês em Toronto para garantir que conseguíamos vender com calma, mas depois dele nos confirmar que a comprava, acabámos por ficar apenas uma semana.

A única coisa de que precisámos foi do Used Vehicle Information Package (UVIP). Este documento, que tem de ser fornecido pelo vendedor, é equivalente a um “dossier” sobre o carro e inclui a informação oficial registada pelo governo. Como os correios estavam em greve e com atrasos, pagámos pelo envio urgente para garantir que chegava antes de estarmos em Toronto.

Com o UVIP na mão, o comprador tratou do registo no Service Ontario da mesma forma que nós tínhamos feito quando o comprámos. Retirámos as matrículas, entregámos a documentação e o processo ficou concluído.

Podes encontrar mais informação sobre o registo no site do governo: https://www.ontario.ca/page/buy-or-sell-used-vehicle-ontario#section-1

6. A nossa minivan – Toyota Sienna 3.5L V6

Ao contrário da Austrália, no início não nos preocupámos muito com a compra de um carro. Existia a hipótese de ficarmos a viver no Canadá, e, mesmo que optássemos por viajar, o visto era de 2 anos (1 na Austrália), o que nos dava mais tempo para pensar no assunto. Mesmo assim, tratámos da conversão da carta de condução poucos meses depois de chegarmos, porque íamos precisar dela independentemente da decisão.

Só quando decidimos que não queríamos ficar no Canadá e que íamos viajar é que começámos a formar a ideia na nossa cabeça. Tal como na Austrália, ponderámos uma van ou um SUV, mas acabámos por descartar ambas as hipóteses: as vans eram muito caras e não queríamos correr o risco de ter que vender barato no final da viagem; os SUV eram demasiado caros porque unidades antigas e sem ferrugem eram raras. Um 4×4 estava fora de questão já que não íamos fazer nada remotamente comparável com a Austrália, e os problemas de preço eram os mesmos (ou piores) dos SUV.

Já tínhamos equacionado uma minivan. São comuns e muito espaçosas, mas receávamos ficar limitados fora de estrada. Pedimos opiniões, pesquisámos os locais que queríamos visitar e chegámos à conclusão de que 4×4/AWD seria praticamente desnecessário. A altura ao solo (a razão principal para um SUV) seria útil em alguns sítios, mas não ao ponto de justificar o custo. Outra razão a favor da minivan era o conforto: com um SUV seríamos obrigados a usar tenda de tejadilho, que além de serem bem mais caras do que na Austrália, sabíamos que íamos ter noites muito mais frias.

Depois de alguma pesquisa, chegámos a três candidatas: Dodge Grand Caravan, Honda Odyssey e Toyota Sienna. As Dodge eram as mais baratas e modernas, mas também as mais problemáticas. As outras duas, apesar de serem fabricadas e vendidas apenas na América do Norte, têm projeto japonês e são muito mais fiáveis. Existem mais Siennas do que Odyssey disponíveis no mercado e parecem dar menos problemas, por isso foi a nossa escolha final.

Começámos a procurar nos sites de usados e no Facebook Marketplace e encontrámos algumas opções. O nosso maior receio era comprar algo “as is” e depois termos reparações caras, por isso tentámos procurar stands ou particulares com a inspeção já feita. As primeiras duas que vimos foram num stand, vendidas com Safety for an extra, e até estavam aceitáveis por fora e por dentro, mas por baixo estavam cheias de ferrugem, e ainda por cima o preço era mais de $9.000 sem impostos. Ficámos desanimados…

Continuámos a procurar e encontrámos um modelo de 2010 com cerca de 180.000 km, já com inspeção feita, o que para nós era um descanso. Contactámos a vendedora, que foi extremamente prestável: como estávamos a trabalhar, levou a carrinha sozinha a uma oficina da nossa confiança para uma inspeção independente. O dono da oficina também foi flexível, e aceitou fazer a inspeção sem estarmos presentes e deixou-nos pagar depois por transferência. O carro estava em bom estado e com ferrugem superficial mínima. A vendedora aceitou guardá-lo até sábado, apesar de já ter mais interessados. Nesse dia apanhámos o comboio até Brampton, vimos a carrinha ao vivo e tratámos de toda a papelada.

Enquanto vivíamos em Toronto só a usámos ao fim de semana, e a única manutenção foi mudança de óleo e filtros.


Durante a viagem fizemos as seguintes manutenções e reparações:

Manutenção:
• Mudámos o óleo e filtro várias vezes
• Mudámos novamente o filtro de ar e de habitáculo
• Pastilhas da frente + fresagem dos discos aos ~210.000 km
• Pneus novos à frente aos ~200.000 km
• Pastilhas traseiras durante a inspeção, já no final da viagem
• Não trocámos velas porque tinham sido substituídas juntamente com as bobines antes da compra

Reparações:
• Casquilhos dos braços de controlo dianteiros (normal para a idade e quilometragem)
• Um suporte do escape (barato e normal considerando o sal no inverno)
• Bateria, que foi culpa nossa: deixámos luzes ligadas e a bateria já era antiga, mas ainda bem que foi antes da viagem
• Fechadura do porta-luvas

Os casquilhos foram detetados pelo mecânico quando trocámos os pneus; o suporte do escape andou a fazer barulho durante uns bons quilómetros até o trocarmos. Depois de a vendermos, o carrinha fez Ontário → Alasca → American Southwest → Ontário sem qualquer avaria. Quem a comprou também nunca ficou apeado, mas teve de trocar discos e pastilhas traseiras e um par de pinças (uma delas estava a prender e a desgastar as pastilhas prematuramente).

No total, fizemos mais de 60.000 km entre neve, gelo, desertos, estradas poeirentas e alguma areia. Fora o que listámos acima, não tivemos de substituir mais nada, e a carrinha nunca nos deixou apeados.

7. Conversão

Para podermos viajar e viver confortavelmente na nossa carrinha durante os 8 meses da viagem, tivemos de fazer algumas modificações no interior, de forma a termos tudo o que precisávamos para o nosso conforto. Quando optámos pela Sienna, vimos vários vídeos de conversões, principalmente de um youtuber chamado Eric Enjoys Earth. Foi no canal dele que fomos buscar várias ideias, mas apesar de ele mostrar o que fez, não explicava bem os processos nem dava medidas, por isso tivemos de nos desenrascar.

Como a carrinha era de 7 lugares com três filas de assentos, o primeiro passo foi retirar os bancos do meio e de trás para libertar o espaço. Depois disso, tirámos as medidas e fizemos alguns desenhos com o plano geral da conversão.


Sofá-cama

Comprámos um colchão de espuma com 10 cm de espessura e, com uma faca elétrica, cortámo-lo em quatro partes. Também comprámos uma placa de madeira, travessas e várias ferragens para fazer a estrutura.

A base foi feita com a placa dividida em quatro partes, ligadas entre si por três dobradiças, permitindo duas posições:
– modo cama, com as placas todas planas;
– modo sofá, com as duas placas do meio num “V” invertido.

O sofá permitia sentar nos dois lados, mas nunca usamos o lado traseiro. Comprámos tecido para forrar as partes do colchão, mas como não sabemos costurar, e para ficar bem tinha que ser com máquina, recorremos a uma costureira para fazer as capas.


Armário

Esta peça acabou por ser a mais desafiante de toda a conversão, principalmente por causa das curvas no interior da carrinha. A primeira tentativa foi literalmente para o lixo, mas na segunda um amigo nosso ajudou-nos a construir algo funcional.

O armário ficou parecido com o que vimos no YouTube, mas menos bonito e sem portas. Como só queríamos guardar roupa, achámos que as portas não faziam falta e só iam complicar e atrasar o projeto.

O armário tinha:

  • uma prateleira no topo, onde colocávamos os casacos;
  • duas prateleiras com rebordo para evitar que as coisas caíssem, onde punhamos os cubos de roupa;
  • acesso à parte inferior (apenas possível em modo cama), onde guardávamos o que usávamos menos, como sacos-cama e mantas extra.

Lavatório e dispensa

Como tivemos de sair do local onde estávamos a fazer a conversão, esta peça foi construída num parque de estacionamento em Toronto. Tivemos muitos olhares curiosos e que lidar com o transito da cidade, onde 1 km demorava 1 hora a fazer… A ideia era preencher o espaço entre o armário e o banco do condutor com um módulo que incluísse lavatório e dispensa. Bloqueava a porta de correr do lado do condutor, mas permitia acesso tanto por dentro como por fora, consoante se a porta ou o vidro estivessem abertos.

Do lado de fora, o módulo estava completamente acessível:

  • à direita ficavam dois garrafões de 15 litros, um com água limpa e outro com água suja;
  • à esquerda, uma prateleira para despensa;
  • no topo, uma taça de plástico que servia de lavatório.

Do lado de dentro, estava tudo tapado, à exceção de uma pequena abertura para aceder à despensa.

Instalámos uma torneira ligada a uma bomba elétrica para puxar a água limpa, com um interruptor de segurança para evitar que a bomba funcionasse acidentalmente.


Sistema elétrico

Era obrigatório termos um sistema elétrico para carregar os nossos equipamentos e manter o frigorífico ligado. Instalámos uma bateria de lítio (LiFePO₄) de 100 Ah na mala, ligada a uma caixa de fusíveis com disjuntor para proteção, e com o negativo da bateria ligado diretamente à chapa do carro (massa). A partir da caixa de fusíveis saíam as ligações para:

  • frigorífico;
  • bomba de água;
  • inversor;
  • tomada de isqueiro (usada sobretudo para o compressor do chuveiro e para encher pneus).

Para carregar a bateria, tínhamos uma ligação direta ao alternador, ativada automaticamente por um relé ligado à ignição, de forma a que as duas baterias se desligassem com o motor desligado. Desta forma evitávamos descarregar a bateria do carro e a não conseguir ligar o carro de manhã. Também carregava com um painel solar fixo no tejadilho de 100 W, e o controlador do painel permitia-nos monitorizar a carga da bateria. O painel solar tinha um interruptor de segurança, já que este nunca deve estar ligado ao sistema sem bateria.


Chuveiro

Vimos vários vídeos com esta ideia e achámo-la genial. Normalmente usa-se um tubo preto com cerca de 4″ de diâmetro no tejadilho, que aquece com a exposição ao sol. Depois é só ligar uma mangueira com chuveiro e tomar banho quente. Algumas pessoas usam uma válvula de pneu para criar pressão com um compressor, por isso fizemos o mesmo. Nós optámos por tubos de 3″ porque não encontrámos suportes para tubos de 4″, e para aumentar o volume útil, acabámos por fazer um sistema em “U”.


Outras modificações e equipamentos

Frigorífico: Para nós, um frigorífico é obrigatório neste tipo de viagem. Optámos por um modelo de 53 litros, com função de arca e frigorífico. Como metade do espaço era para o congelador, removemos a divisória para o usar sempre como frigorífico.

Mesa: Inicialmente não tencionávamos fazer uma , mas como sobrou madeira da placa usada para a cama, acabámos por comprar duas pernas metálicas com dobradiças. A mesa ficava arrumada entre a dispensa e o banco do condutor, e quando aberta tinha espaço suficiente para os dois. Acabámos por usá-la poucas vezes porque ao montá-la ficávamos “presos” e não era possível sair do sofá sem a desmontar. Era uma limitação natural do pouco espaço disponível.

Chão: Nada de muito elaborado, mas essencial. Queríamos proteger a carpete original do carro de líquidos e sujidade, e facilitava bastante a limpeza do chão. Inicialmente pensámos em usar madeira, mas acabámos por optar por tapetes de borracha. Colámos vários e preenchemos a zona onde por norma andávamos calçados.

Caixas de plástico: Tínhamos 4, e tinham tudo o que eram talheres, tachos e frigideira, comidas maiores como massa e arroz, e também consumíveis como papel de cozinha, shampoo, gel de duche, etc. Ficavam arrumadas debaixo do sofá-cama, com duas delas facilmente acessíveis pela frente.

8. Distâncias

O Canadá é um país enorme, e isso tem implicações diretas no planeamento da tua viagem. Vais ter de fazer escolhas e ter atenção ao tempo das deslocações. Para teres uma perspetiva: o Canadá é mais de 100 vezes maior do que Portugal, e embora grande parte do território seja remoto e pouco habitado, considerando apenas a área por onde viajámos, estamos a falar de algo na ordem das 20 vezes o tamanho de Portugal.

Para teres uma noção das distâncias, de St. John’s (Newfoundland) até Victoria (British Columbia) são cerca de 7.200 km e 81 horas de condução. Duas das cidades mais distantes em Portugal, Bragança e Sagres, distam cerca de 750 km e pouco mais de 8 horas. Só para atravessar a ilha de Newfoundland são necessárias aproximadamente 9 horas e 900 km, e esta ilha representa 1% da área total do país.

Tal como a Austrália, existem zonas muito isoladas e com densidades populacionais baixas, mas a grande diferença é que enquanto na Austrália essas zonas são muitas vezes acessíveis por estrada de alcatrão ou terra batida, no Canadá estão literalmente isoladas, sem acesso por qualquer via terrestre, e cobertas de densas florestas, montanhas e gelo. Na Austrália existem imensos aeródromos espalhados pelo interior para ligar várias zonas e evitar vários dias de condução, mas no Canadá as zonas mais isoladas estão ligadas por via aérea simplesmente porque não existe outra opção. Na Austrália consegues dar a volta ao país num carro convencional; no Canadá, algumas províncias e territórios têm apenas algumas estradas que dão acesso ao norte e ao mar Ártico, mas muitas zonas não têm acesso terrestre. Curiosamente, 85% da população canadiana vive a menos de 150 km da fronteira com os EUA.

Dito isto, fazemos o mesmo aviso que fizemos sobre a Austrália: as distâncias vão surpreender quem está habituado à escala europeia. A nós não nos surpreenderam tanto por causa da nossa experiência australiana, mas não deixaram de se fazer sentir. Saskatchewan foi dos sítios mais isolados onde estivemos, mas mesmo aí, era notória uma maior presença humana comparativamente à Austrália.

9. Vida selvagem

Apesar das piadas sobre a vida selvagem australiana te querer matar constantemente, tivemos mais receio no Canadá e EUA. Há vários animais predatórios com os quais deves ter muito cuidado: ursos, mountain lions, lynx e lobos. Coiotes são por norma inofensivos e têm medo de humanos, mas os lobos são grandes e perigosos. Felinos como o mountain lion e o lynx são furtivos e atacam diretamente o pescoço.

Os ursos merecem atenção especial. Vais encontrar essencialmente dois tipos: pretos e grizzly. Os pretos são mais pequenos e assustadiços, mas não deixam de ser perigosos, principalmente mães com crias. Nas caminhadas, vai acompanhado, fala alto e faz barulho para não os apanhares de surpresa. Se encontrares um, recua devagar sempre virado para ele, faz-te grande abrindo os braços e faz muito barulho. Com um grizzly, se ele não recuar, a melhor opção é fingires-te de morto e protegeres as áreas vitais e o pescoço.

Leva sempre bear spray! É caro, mas é a melhor forma de afastar um urso (e outros animais) em caso de emergência. Nunca corras nem subas às árvores: eles são mais rápidos do que parecem e sobem melhor do que tu, e fugires ativa o instinto de caça.

Os ursos por norma evitam humanos, mas têm um olfato muito superior ao de um cão e são atraídos por comida. Nunca deixes comida à vista nem em contentores não apropriados. Em parques como o Yosemite (nos EUA), os ursos aprenderam a arrancar as portas dos carros porque as pessoas deixam comida lá dentro. Quando isso acontece, os ursos são abatidos; não sejas a razão para isso! Muitos parques têm contentores próprios para armazenar comida e são de uso gratuito, e nalguns casos, obrigatório!

Apesar dos avisos constantes, só vimos ursos quase no final da viagem, na Vancouver Island. Muitos locais dizem que “isto não é um zoo”, e têm razão. Os ursos existem, mas evitam-nos ativamente. É muito provável que te cruzes com eles sem dares conta.

Ursos polares existem apenas nas regiões mais a norte, e aqui os carros são obrigados a estar destrancados e com as chaves na ignição. Um encontro com um urso polar é potencialmente fatal. Raros, mas existem avistamentos no norte de Newfoundland. Os ursos polares “apanharem boleia” em blocos de gelo vindos de Labrador, mas por norma comem tantas focas no caminho que chegam cheios. No entanto é preciso muito cuidado e atenção, especialmente no inverno!

Nas pradarias não há ursos, mas podes encontrar cobras, cascavéis e carraças. Vimos búfalos e alces ao longo da viagem, são animais enormes dos quais nunca nos aproximámos, que é a atitude certa. Apesar de serem herbívoros, podem ser muito agressivos, e o tamanho deles torna-os perigos se te aproximares, mas também em caso de atropelamento.

10. Clima

No geral os verões são amenos e os invernos muito frios, mas pode variar um pouco num país desta dimensão.

Nas grandes cidades não terás grandes limitações, mas como o inverno é significativamente mais rigoroso do que em Portugal, vais sentir, e bem o frio. Cidades como Toronto ou Montreal chegam regularmente aos -20 ºC num inverno normal, enquanto que Calgary, uma cidade com mais do dobro da população de Lisboa, atinge facilmente os -30 °C. Vivemos dois invernos em Toronto, e por mais roupa adequada que usássemos, ainda hoje nos arrepiamos com o frio…

As províncias das pradarias atingem facilmente os -40 ºC no inverno. Locais como o Lake Moraine, no Banff National Park (e muitas outras), encerram durante o inverno. Mesmo fora das montanhas, nas zonas mais baixas, planas e a sul, pode acontecer teres estradas cortadas devido à queda de neve. Na zona dos Grandes Lagos existem tempestades de neve bastante fortes (lake effect) que facilmente cortam estradas e cobrem tudo de neve em poucas horas.

O calor também pode ser um problema, mesmo que não o seja ao nível da Austrália ou Portugal. Nas pradarias, o verão é quente e seco, zonas costeiras podem apanhar ondas de calor acima dos 35 ºC, e British Columbia costumas ter muitos incêndios.

Fizemos a nossa viagem entre maio e outubro, propositadamente para evitar o inverno canadiano. Se planeias viajar no inverno, prepara-te a sério, tanto o veículo como tu próprio. A primavera é notoriamente mais tardia, e sentimos bem isso nas províncias Atlânticas, mas até mesmo em Ontário.

11. Road Trip

A 1 de maio de 2024 começámos a nossa road trip pelo Canadá. Ao longo de cinco meses percorremos cerca de 34.000 km no Canadá, tendo depois feito mais 24.000 km e três meses nos EUA. Regressámos ao ponto de partida para vender o carro em janeiro de 2025.

Começámos por explorar um pouco de Ontário, Québec, e New Brunswick enquanto seguíamos para leste. O nosso primeiro destino foi a província de Nova Scotia, onde passámos duas semanas, e foi aqui que apanhámos o ferry para Newfoundland, onde ficámos três semanas (troço a vermelho, Maio e Junho). Ao voltar para trás, explorámos Prince Edward Island, e mais de New Brunswick e Québec (troço a azul, Junho). Continuámos a atravessar e a explorar Ontário rumo ao oeste: pouco tempo em Manitoba, duas semanas em Saskatchewan, três em Alberta e outras tantas em British Columbia, incluindo a Vancouver Island (troço verde, de Julho a Outubro).

O leste tinha uma uma costa agreste e diversa, o centro tinha as pradarias com um horizonte a perder de vista, mas foi no oeste, em Alberta e British Columbia que a paisagem mudou completamente de escala. As montanhas são jovens, recortadas e dramáticas. Banff foi o parque mais marcante, e estradas como a Icefields Parkway ou a Highway 40 em Kananaskis tornaram-se memoráveis. Fotograficamente, foi provavelmente o território mais impressionante que já percorremos.

O ritmo foi intenso, com muitos dias de condução, mas também períodos mais concentrados numa mesma zona, especialmente nas Rockies. Ao contrário da Austrália, aqui não sentimos um isolamento absoluto, pelo menos não ao mesmo nível. Mesmo nas pradarias de Saskatchewan, onde a linha do horizonte parece infinita, existem campos agrícolas, estradas secundárias e sinais constantes de presença humana. É um país vasto e selvagem, muito mais do que os países Europeus, mas das zonas que visitámos, menos extremo comparativamente à Austrália.

Viajar desta forma já não era novidade para nós. A experiência na Austrália tornou tudo mais simples: organização, gestão de recursos, algumas decisões e escolha de locais para dormir. A nossa minivan era confortável para o dia a dia, embora o clima canadiano imponha limites. A primavera demora a chegar, o verão pode ser surpreendentemente quente, ainda pior dentro de um carro, e o inverno é uma desafio enorme para quem vive na estrada.

Durante quase toda a viagem convivemos com a ideia de estarmos em território de ursos, e isso mudou alguns comportamentos. Mais atenção em caminhadas, mais cautela à noite a fazer astro-fotografia e evitávamos ter comida com cheiro forte. Ironicamente só os vimos quase ao fim de 5 meses já na Vancouver Island. O receio esteve mais presente do que o perigo. Apanhámos algum fumo de incêndios em Manitoba, Saskatchewan e British Columbia, especialmente na zona de Kelowna, mas nada que nos obrigasse a parar. De resto, a viagem foi estável e sem grandes imprevistos.

Se tivessemos de resumir o Canadá numa palavra, certamente que seria “friendly”. Pela simpatia das pessoas, pela facilidade de atravessar um país enorme sem fricções e pelas boas surpresas, como convites inesperados para ficar em casa de desconhecidos que rapidamente deixaram de o ser. Temos algumas história para contar…

A 8 de outubro do mesmo ano cruzámos a fronteira em British Columbia e entrámos em Washington State. A viagem continuou naturalmente e percorremos cerca de 24.000 km pelos EUA antes de regressar a Ontário. Passámos por vários estados e paisagens muito diferentes, naquilo que foi uma extensão lógica da road trip canadiana, mas com uma identidade própria.

Voltámos ao Canadá depois do ano novo, vendemos a minivan a um amigo Português que tínhamos conhecido na Austrália e encerrámos a viagem a 5 de janeiro de 2025, depois de 249 dias na estrada.

12. Custos

Queremos ser transparentes contigo e mostrar-te todos os custos que tivemos durante a nossa viagem. Vamos dividi-los em duas partes: os custos de aquisição, manutenção e conversão do carro, e os custos durante a viagem em si. De forma a uniformizar os valores, todos os custos serão apresentados em euros, com a conversão à data de cada despesa. A maior parte dos custos com o carro foram em dólar canadiano, mas tivemos alguns em dólar americano. Como a viagem nos EUA está interligada, apresentar tudo em euros permite uma comparação mais fácil entre os dois países.

De referir que há custos que não vamos incluir, ainda que representem uma pequena percentagem. Por exemplo, comida, detergentes e outros consumíveis que sobraram de quando vivíamos em Toronto foram aproveitados para a viagem, assim como lençóis, almofadas e algumas coisas de casa. Em contrapartida, no fim da viagem sobrou alguma comida e detergentes.

Todos os custos apresentados são totais, mas somos duas pessoas. É importante ter isso em conta: muitos custos são praticamente iguais independentemente de viajares sozinho ou acompanhado — tudo o que está associado ao carro, combustível e ferries (onde o maior custo é o veículo e não os passageiros). Para estes, o valor apresentado é o custo real, quer viajes só ou acompanhado. Já custos como comida e plano de telemóvel devem ser divididos por dois. Isto implica que no nosso caso real, o custo por pessoa foi metade dos valores apresentados.


Custos com o carro

Estes são os custos que tivemos com a aquisição, manutenção e conversão do carro para a viagem. Para contextualizar estes valores, fizemos a comparação com duas alternativas comuns: alugar uma caravana equipada ou ficar em hotel com carro alugado. A viagem durou 249 dias, dos quais 160 no Canadá e 89 nos EUA. Alugar uma caravana teria custado cerca de 105€ por noite, um total de aproximadamente 26.150€, sem contar com seguros de proteção extra nem quaisquer outros extras. Hotel com carro alugado, a cerca de 90€ por dia (50€ de carro e 40€ de hotel, valores por baixo), ficaria em aproximadamente 22.400€, igualmente sem extras nem seguros adicionais. É justo reconhecer que uma caravana seria mais confortável (e um hotel nem se fala), mas gastaria muito mais combustível ao longo de 249 dias, o que aumentaria ainda mais a diferença.

A nossa opção — comprar, equipar e vender o carro — ficou muito abaixo destes valores, e ao contrário de um hotel ou caravana alugada, deu-nos a liberdade total de dormir onde quisemos, quando quisemos, e aproveitar a viagem num carro que é nosso. O custo total foi de 10.900€, menos de metade do que gastaríamos em qualquer das outras duas opções. Mas este seria o pior cenário — como vendemos o carro por 6.050€, no total só gastámos 4.850€, cerca de 20% do custo de qualquer uma das alternativas.

Contabilizámos tudo, e fizemos a divisão em 10 categorias:

  • Car – O custo de compra do carro, literalmente o valor que pagámos ao vendedor.
  • Camping – Tudo o que está associado a viver no carro: todos os materiais e ferragens para construir os móveis, material elétrico, frigorífico, etc.
  • Insurance – Seguro e assistência em viagem.
  • Maintenance – Tudo o que é manutenção: óleo, filtros, pneus, travões, lâmpadas.
  • Repairs – Reparações: os casquilhos dos braços de controlo dianteiros representam o bolo desta categoria.
  • Inspections – Pagámos uma inspeção antes de comprar o carro para confirmar que estava tudo ok, e pagámos uma para o poder vender.
  • Taxes – Impostos associados ao carro, que praticamente foi só o IVA aquando da compra.
  • Acessórios – Acessórios relativos ao carro: suporte GPS, material para proteção, etc.
  • Tools – Ferramentas, incluindo uma mala com várias chaves, compressor, etc.
  • Cleaning – Material de limpeza, lavagens e aspirar o carro.

Custos durante a viagem

Estes são todos os custos que tivemos durante a nossa viagem. Mais uma vez, atenção que poupámos algum dinheiro por levar coisas de quando vivíamos em Toronto, mas alguma comida e detergentes também transitaram para os Estados Unidos. Durante toda a viagem (no Canadá) não pagámos uma única noite de alojamento. É provavelmente a categoria mais surpreendente desta lista, e a que melhor ilustra a vantagem de viajar desta forma. Passámos algumas noites em casas (ou no carro no terreno) de desconhecidos que nos convidaram, mas em nenhuma dessas situações precisaríamos de pagar por alojamento.

  • Fuel – Combustível gasto.
  • Eating Out – Comer em restaurantes, take away e cafés. Decidimos separar das compras de supermercado porque o valor é elevado. Demasiado até, já que podíamos ter gasto bem menos. Claro que isto iria aumentar um pouco a próxima categoria.
  • Groceries – Tudo o que são alimentos e bebidas de supermercado e mercearia.
  • Activities – Os passes e bilhetes para os parques nacionais e das províncias, assim como custos associados: estacionamento no Lake Louise e autocarros obrigatórios no Banff NP. Também inclui museus e tours.
  • Ferry – Travessias de ferry para ilhas: Newfoundland, Les Îles-de-la-Madeleine, Vancouver Island e Fogo island.
  • Household – Tudo aquilo que podemos considerar “para a casa”. Consumíveis como papel higiénico, sabão, shampoo, medicação, gás para o fogão, etc.
  • Phone – Plano mensal de telemóvel. De relembrar que o valor inclui dois planos.
  • Clothes – Roupa. Não comprámos nada que precisássemos para a viagem, mas o valor é tão baixo que preferimos incluir.
  • Electronics – A maior despesa foi um disco externo, necessário para a viagem dado a quantidade de fotos e vídeos que fizemos.
  • Other – Tudo o que não se encaixa nas outras categorias. Souvenirs, vinho e comida que levávamos de quando ficávamos em casa de alguém.
  • Transport – Achámos que faria mais sentido ter o combustível e ferries separados. Nesta categoria foi só estacionamento e portagens. A única portagem de relevo foi a ponte para P.E.I.
  • Laundry – Custos com a utilização de máquinas de lavar a roupa e secar. Não incluímos o detergente e amaciador já que sobrou de Toronto.
  • Shower – Banhos pagos durante a viagem, mas ainda tiivemos vários gratuitos.
  • Transit – Transportes públicos.

Total e valores mensais

De forma a simplificar a visualização, abaixo temos os custos do carro e da viagem agrupados de forma mais geral. Dado que a nossa viagem teve duas partes, Canadá e Estados Unidos, nos custos do carro considerámos 64,3% para o Canadá, o equivalente a 160 dos 249 dias de viagem.

  • Transport – Inclui tudo o que está associado ao carro como meio de transporte, exceto a conversão. Também inclui combustível, portagens, ferries e transportes públicos.
  • Food – Supermercados, restaurantes, take-away e cafés.
  • Accomodation – Custos com a conversão do carro. Inclui também duches e lavandaria, já que são coisas que por norma se fazem em casa.
  • Activities – A mesma categoria que a anterior.
  • Household – A mesma categoria que a anterior, incluindo eletrónica.
  • Phone – A mesma categoria que a anterior.
  • Other – Tudo o resto, incluindo roupa.

O custo mensal desta viagem no Canadá foi de 1.043€ por pessoa considerando a venda do carro, ou 1.649€ sem a venda. Por categoria, o custo mensal por pessoa foi de:

  • Transport – 370€ (976€ sem a venda)
  • Food – 404€
  • Accomodation – 112€
  • Activities – 61€
  • Household – 41€
  • Phone – 31€
  • Other – 24€

404€ em comida por pessoa é um valor elevado. O Canadá é um dos países onde já vivemos mais caros em supermercados e restaurantes, mas houve sem dúvida algum um abuso da nossa parte em comer fora. A isso acresce o facto de certas zonas mais isoladas terem supermercados com preços bem acima da média.

Publicado em 2025 · Atualizado em 2026