Viajar na Austrália

O overlanding nasceu na Austrália, e em conjunto com o clima e a cultura, não admira que seja um dos países onde mais se vê e aceita viver num veículo. Nunca fomos julgados por isso, mas mais depressa as pessoas reagiam com um “wow” fora da Austrália do que dentro. O estilo van life existe por todo o lado, mas a Austrália é outro nível: backpackers, casais (jovens e reformados) e até famílias com crianças. Enquanto que na Europa e na América do Norte a maioria viaja de van ou caravana, na Austrália predominam SUVs, jipes e 4×4 com atrelados ou tendas de tejadilho.

Dito isto, não podes dormir em qualquer lado. As regras variam com a localização e o estado, por isso verifica sempre se é legal dormires onde pretendes. Ao contrário de muitos países, na Austrália pode ser permitido conduzir nas praias, mas isso também varia com o estado e a localização.

Não te esqueças que a Austrália está no hemisfério sul, as estações do ano estão invertidas em relação à Europa, e a diferença horária varia com as mudanças de hora.

Se vais para a Austrália em viagem ou com um Work and Holiday Visa, rapidamente vais perceber que a forma como te deslocas pelo país vai influenciar a tua experiência. Existem várias opções, mas para viagens de vários meses, comprar um carro acaba quase sempre por ser a solução mais prática e flexível. Vamos explicar porquê, que tipo de carro faz sentido e quais foram os custos reais que tivemos.

  1. Porquê comprar um carro (e alternativas)
  2. Greyhound Bus
  3. Carta de condução e requisitos legais
  4. Comprar um carro usado (dicas e processo)
  5. Seguro e registo
  6. O nosso carro – Nissan X-Trail
  7. Equipamento e organização
  8. Distâncias
  9. Conduzir à Esquerda
  10. Vida selvagem
  11. Clima
  12. Fusos Horários
  13. Road Trip
  14. Custos

1. Porquê comprar um carro (e alternativas)

Nós não precisávamos de carro enquanto vivíamos em Melbourne, e recomendamos que não compres um se fores viver numa grande cidade. Comprámos o nosso apenas um mês antes de iniciar a viagem, e tivemos a sorte de um amigo que vivia nos subúrbios nos deixar estacioná-lo em casa dele. Se o teu objetivo for fazer farm work para o segundo ano do visto, é muito provável que estejas numa zona com menor densidade populacional, e neste caso ter carro vai facilitar bastante a procura e o acesso ao trabalho.

A forma como vais viajar pela Austrália depende sobretudo do tempo e do orçamento disponíveis, bem como das regiões que queres visitar. Durante a nossa viagem conhecemos pessoas que optaram por soluções diferentes, o que nos permitiu perceber bem as vantagens e limitações de cada uma.

Boleia: Andar à boleia não é para todos, mas é uma opção que vimos várias vezes. Pessoas que não se conheciam acabavam por fazer amizade e viajar juntas durante parte ou na totalidade da rota. É uma forma económica de viajar, sem te preocupares com custos inesperados, mas ficas naturalmente dependente da disponibilidade do condutor. Nós queríamos ter liberdade total para decidir onde ir e quando parar, por isso esta opção nunca foi considerada. Existe também o fator segurança, já que estás a viajar com alguém que não conheces.

Transportes Públicos: Os transportes públicos funcionam melhor em zonas com maior densidade populacional, sobretudo na costa leste (Queensland, New South Wales e Victoria). Na Austrália Ocidental e noutras regiões mais remotas, viajar de transportes é mais limitativo. Podes no entanto combinar transportes públicos com boleias ou aluguer pontual de carro. Continua a ser uma das formas mais económicas de viajar, mas com limitações claras fora das áreas mais povoadas.

Podes também voar entre as grandes cidades e capitais, e existem aeroportos regionais em zonas remotas, mas os voos internos são geralmente caros. Para a costa leste, a opção mais utilizada por backpackers são os autocarros da Greyhound (falamos com detalhe mais abaixo). Dentro das grandes cidades e áreas metropolitanas existe boa rede de transportes públicos, bem como alguns serviços regionais de comboio e autocarro.

Aluguer: Alugar carro é geralmente a opção mais sensata se estiveres na Austrália com visto de turismo e pouco tempo. Para estadias mais longas, como num Working Holiday Visa, pode compensar comprar.

Existem muitas empresas de aluguer com diferentes tipos de veículos: carros, vans, 4×4 e caravanas. Se o objetivo for dormir no veículo (algo bastante comum), faz mais sentido uma van ou caravana. Também é frequente encontrar monovolumes com cama integrada. O processo de aluguer não difere muito de outros países, mas recomendamos contratar seguro com cobertura de danos, porque qualquer incidente pode tornar-se caro.

Se pensas fazer off-road, deves ter atenção: mesmo alugando um 4×4, a maioria das empresas proíbe circulação fora de estrada. Os veículos têm GPS e telemetria, pelo que conseguem verificar onde estiveste. Locais populares como Lucky Bay (a famosa praia dos cangurus) são normalmente proibidos com carros de aluguer, e arriscas-te a penalizações ou até cancelamento do contrato.

Alugar dá-te flexibilidade sem preocupações com manutenção ou avarias, mas a longo prazo tende a ser bem mais caro do que ter veículo próprio.

Comprar Carro: Comprar permite-te ir onde quiseres, quando quiseres. Implica lidar com compra e venda, manutenção, registo e outros custos, mas para viagens longas continua a ser, na nossa experiência, a melhor solução. Se já tiveste carro em Portugal, a maioria dos processos na Austrália não te vai ser estranha, embora existam diferenças importantes que explicamos nas secções seguintes. Se estás a pensar comprar um carro para a viagem, temos um guia dedicado a ajudar-te a escolher o veículo certo e perceber quais as especificações técnicas mais importantes. Como esta informação é transversal a qualquer destino, decidimos centralizá-la para evitar repetição.

2. Greyhound Bus

Se preferires usar transportes públicos e o teu objetivo for percorrer a costa leste (entre Melbourne e Cairns), existe o serviço da Greyhound, que é sem dúvida a opção mais utilizada por backpackers. A rede liga praticamente todas as cidades e destinos turísticos principais ao longo da costa, com muitas paragens intermédias.

Existem dois tipos principais de passes: WHIMit East Coast e WHIMit National.
O East Coast permite viagens ilimitadas entre Melbourne e Cairns durante o número de dias escolhido. O National dá acesso a toda a rede australiana, incluindo Northern Territory, South Australia e Western Australia, embora nestas regiões existam muito menos rotas e frequências.

Se o teu objetivo for viajar pela costa oeste, interior, norte ou Tasmânia, as opções de transporte público tornam-se bastante mais limitadas. Existem algumas tours organizados de vários dias, mas nessas regiões a forma mais prática de viajar continua a ser carro próprio ou alugado.

Os passes East Coast mais comuns são:

7 dias – AU$319
15 dias – AU$405
30 dias – AU$489.

Os passes National começam normalmente a partir de cerca de AU$465 para 15 dias, aumentando consoante a duração. Os preços variam e a Greyhound permite personalizar o número de dias, pelo que deves sempre confirmar no site oficial antes de comprar.

Atenção que estes preços podem ser alterados, por isso deves confirmar os mesmos site da Greyhound Australia.

3. Carta de condução e requisitos legais

Se o teu objetivo for conduzir na Austrália, vais obviamente precisar de ter uma carta de condução válida. Se estiveres com visto de turismo e apenas fores viajar algumas semanas, a forma mais simples é obter uma carta internacional no IMT antes de sair de Portugal.

Se, como nós, estiveres num WHV e quiseres conduzir durante vários meses, a carta internacional (válida por um ano) continua a ser uma opção, mas não é a única. Em alternativa, podes usar a tua carta portuguesa acompanhada de tradução oficial para inglês feita por tradutor certificado na Austrália.

Para aluguer de carro, a carta internacional é normalmente a solução mais direta e aceite em todo o lado. Para compra e utilização de veículo próprio, tanto a carta internacional como a carta portuguesa com tradução oficial são válidas. A principal diferença prática é a validade: a carta internacional dura um ano, enquanto a tradução acompanha a validade da tua carta portuguesa, normalmente bastante mais longa.

Se estiveres a viver na Austrália durante vários meses, existe um período após o qual deves obter carta do estado onde resides. Esse prazo varia por estado. Em Victoria, por exemplo, o limite geral é de 6 meses de residência. Nós vivemos nesse estado mas nunca fizemos a conversão, porque acabámos por sair mesmo perto desse limite. Na prática, o controlo não é particularmente rigoroso em contexto de WHV, mas legalmente o requisito existe.

Também não é obrigatório ter carta australiana para comprar um carro (em Victoria e Western Australia, pelo menos). A principal limitação é que alguns processos administrativos, como transferências de registo, podem não estar disponíveis online para titulares de carta estrangeira, tendo de ser feitos presencialmente ou por correio.

Se precisares de tradução certificada da carta, podemos indicar-te um contacto que utilizámos. Por questões de privacidade, pedimos apenas que nos envies mensagem.

4. Comprar um carro usado (dicas e processo)

A Austrália é um país federal, tal como os EUA ou o Canadá, dividido por estados e territórios. Cada estado tem o seu próprio sistema de registo automóvel (“rego”), regras administrativas e matrículas. É possível comprar um carro registado noutro estado, mas na maioria dos casos, se passares a residir noutro estado, serás obrigado a fazer inspeção e a transferir o registo para esse novo estado.

Para quem está em roadtrip, isto pode ser inconveniente, porque normalmente implica tratar da transferência no estado onde o carro está registado ou onde passa a estar registado. Por essa razão, muitos backpackers adotam uma de duas estratégias: terminam a viagem no estado onde compraram o carro, ou compram um veículo com matrícula de Western Australia (WA).

O motivo é simples: o sistema de WA permite vender o veículo a partir de qualquer estado australiano, enviando a documentação pelo correio, sem necessidade de inspeção no estado de venda. Noutros estados, a venda normalmente exige inspeção local ou transferência presencial, o que na prática obriga a vender no próprio estado ou a alterar previamente o registo. Por isso, veículos com matrícula de WA são geralmente mais fáceis de vender durante uma viagem nacional.

Além disso, o registo e alguns custos associados tendem a ser ligeiramente mais baixos em WA do que em estados como Victoria ou New South Wales.

Vamos explicar o processo com base na nossa experiência real: comprámos o carro em Victoria, transferimos o registo para WA durante a viagem e vendemo-lo em Queensland.


Estado dos carros de backpackers e a nossa estratégia
Uma realidade que observámos é que muitos carros usados em viagens longas por backpackers não recebem manutenção adequada. Em WA, onde não existe inspeção periódica obrigatória (equivalente à IPO portuguesa), isto é ainda mais visível. Vimos veículos com suspensões danificadas, manutenção negligenciada e problemas mecânicos sérios. Chegámos a ver um caso de correia de distribuição partida pouco depois da compra.

Por esse motivo, optámos por comprar um carro em bom estado em Victoria, onde o controlo técnico na venda é mais rigoroso, e só depois mudar o registo para WA. Comprámos o carro em Victoria, e quando chegámos a WA, fizemos inspeção e mudança de matrícula. Mais tarde, vendemo-lo em Queensland e apenas tivemos de enviar a documentação para o Department of Transport de WA por correio.

Esta abordagem permitiu-nos comprar num mercado com melhores condições e vender com a flexibilidade administrativa de WA.


Dicas para comprar um carro usado

  1. Define um orçamento
    Inclui compra, registo, seguro e possíveis reparações. O nosso orçamento era cerca de $8000; pagámos $6000 pelo carro e ~$1500 em reparações iniciais.
  2. Escolhe marca e modelo comuns
    Na Austrália predominam marcas japonesas (Toyota, Nissan, Mitsubishi). Peças e mecânicos são mais acessíveis.
  3. Verifica o VIN e histórico do veículo
    O VIN tem de coincidir com documentos e chassis, e com ele podes obter relatórios (acidentes, write-off, finanças pendentes).
  4. Faz inspeção pré-compra
    Idealmente por mecânico independente. Nós fizemos inspeção própria básica (fugas, ferrugem, folgas, ruídos).
  5. Test-drive
    Avalia motor, caixa, travagem, direção e comportamento em estrada.
  6. Registos de manutenção
    Histórico documentado é um bom indicador de cuidado.
  7. Confia no instinto
    Se algo não parecer certo no carro ou no vendedor, afasta-te. Vimos um carro em Victoria com matrícula WA e sem histórico; a história do vendedor não era coerente e desistimos.
  8. Verifica propriedade
    Confirma que o vendedor é o titular e que não há encargos financeiros.
  9. Não te precipites
    Há muita oferta; um mau carro pode arruinar a viagem.
  10. Leva outra pessoa
    Um segundo par de olhos ajuda sempre.

Comprar carro em Victoria

Quando compras um carro em Victoria, o vendedor deve submeter o Notice of Disposal à VicRoads no prazo de 14 dias. Ambos preenchem o formulário de transferência de registo (Transfer of Registration). Se não tiveres carta de condução de Victoria, terás de tratar da transferência presencialmente num balcão VicRoads.

Deves criar conta online na VicRoads para gerir dados e pagamentos de registo (“rego”). No processo pagas taxa de transferência e imposto de selo.

Em Victoria, a venda exige normalmente um certificado de inspeção (Roadworthy Certificate), que no nosso caso foi tratado pelo vendedor. O registo existente mantém-se até à data já paga (como o IUC em Portugal). Recebes aviso de renovação antes do fim se tiveres conta ativa e morada válida no registo, e é importante ter uma morada estável (usámos a de um amigo após sair de Melbourne).

O registo inclui o seguro obrigatório de danos pessoais (CTP – Compulsory Third Party), que cobre lesões a pessoas (ocupantes e terceiros), mas não cobre danos materiais em veículos ou propriedade. Ao contrário de Portugal, o seguro de responsabilidade civil para danos materiais não é obrigatório, e falamos disso na secção de seguros.

Se quiseres vender um carro registado em Victoria, normalmente tens de o fazer nesse estado ou o comprador terá de transferir o registo para outro estado, com inspeção local.


Mudar a matricula para WA

Para poder vender o carro em qualquer estado, decidimos transferir o registo para WA. Fizemos o processo em Perth e utilizámos a morada de amigos.

Primeiro é necessário fazer inspeção técnica num centro autorizado (equivalente à IPO). O custo é cerca de AU$160. Depois vais ao Department of Transport (DoT) com:

  • certificado de inspeção
  • formulário VL17
  • duas provas de identidade (uma com morada em WA)
  • prova de propriedade do veículo

Entregas as matrículas antigas e recebes as de WA no momento. Pagas o novo registo (rego) de WA, que inclui o mesmo seguro obrigatório de danos pessoais (CTP).

Cancelámos o seguro e assistência em viagem de Victoria e contratámos equivalentes em WA. Como o registo VIC ainda tinha meses pagos, recebemos um reembolso proporcional.


Vender um carro de WA noutro estado

Terminámos a viagem em Queensland e vendemos lá o carro com matrícula WA. O processo é simples porque WA permite transferência por correio.

Usa o formulário MR9, que podes imprimir online, mas nós trouxemos um connosco quando alterámos as matriculas. Preenches dados do vendedor, veículo e comprador e envias a cópia azul para:

Driver and Vehicle Services
GPO Box R1290
PERTH WA 6844

Tens 7 dias para enviar. A cópia vermelha fica com o comprador, juntamente com os documentos.

O comprador deve ter morada em WA, pois é para lá que a nova documentação será enviada. No nosso caso, como vendemos a uma amiga, ela utilizou a morada de um amigo nosso em WA.

No formulário tens de indicas o valor de venda. O comprador paga imposto de transferência baseado nesse valor. Declarar valor inferior para pagar menos imposto pode criar problemas legais se houver litígio posterior.

5. Seguro e registo

Na maioria dos países, o seguro de responsabilidade civil automóvel (seguro contra terceiros) é obrigatório. Este seguro cobre danos que possas causar a outras pessoas, veículos ou propriedades num acidente. Na Austrália, o sistema é um pouco diferente: o seguro obrigatório está incluído no registo (“rego”) do veículo e cobre apenas danos pessoais, não danos materiais.

Quando tens um carro na Austrália, pagas o registo, equivalente ao IUC português. Este inclui o CTP (Compulsory Third Party), um seguro obrigatório que cobre lesões ou morte de pessoas envolvidas num acidente em que sejas culpado. No entanto, não cobre danos noutros veículos, propriedades ou no teu próprio carro.

Isto significa que, se provocares um acidente e danificares outro veículo ou infraestrutura, és pessoalmente responsável pelos custos, que podem facilmente atingir dezenas de milhares de dólares. Por esse motivo, embora não seja legalmente obrigatório em todos os estados, é fortemente recomendado fazer um seguro adicional de responsabilidade civil para danos materiais. Conhecemos alguns relatos de pessoas que optaram por não o fazer e ficaram com dívidas muito elevadas após acidentes.

Na Austrália existem normalmente três níveis de seguro automóvel, que são semelhantes ao que encontras em Portugal:

  • Third Party Property – cobre danos materiais que causes a outros veículos ou propriedades
  • Third Party Fire & Theft – acrescenta cobertura em caso de incêndio ou roubo do teu veículo
  • Comprehensive – cobre também danos no teu próprio carro, mesmo com culpa tua

O nível adequado depende do valor do veículo e da tua tolerância ao risco. Na Austrália optámos por Third Party Fire & Theft. O Third Party Property já nos protegia em caso de danos a terceiros, e a cobertura adicional de incêndio e roubo custava praticamente o mesmo. Evitámos o Comprehensive porque é sobretudo útil para proteger o valor do teu próprio carro em caso de acidente com culpa e, sendo um veículo relativamente barato, não nos pareceu justificar o custo adicional. Além disso, temos bastante experiência de condução e conduzimos de forma defensiva, o que também pesou na decisão.

Tivemos de contratar seguro duas vezes porque mudámos o registo de Victoria para WA. Em Victoria pagámos cerca de $500/ano, e em WA cerca de $270/ano. Quando mudámos o registo e posteriormente quando vendemos o carro, cancelámos as apólices e recebemos reembolso proporcional pelos meses não utilizados.

Optámos pela RAC (RACV em Victoria e RACWA em WA), mas existem outras seguradoras. O preço varia consoante vários fatores, sendo idade e anos de carta particularmente relevantes. O seguro ficou em nome do João, por ser mais velho (31 anos na altura) e ter mais anos de carta (12).

A assistência em viagem (roadside assistance) é também recomendável e relativamente barata. No nosso caso custava cerca de $16/mês através da RAC, e utilizámos o serviço nos dois estados.

6. O nosso carro – Nissan X-Trail

Cerca de um mês depois de chegarmos a Melbourne começámos logo a pesquisar carros para a nossa roadtrip pela Austrália. Ainda era cedo, mas queríamos perceber o mercado, preços e opções disponíveis. Inicialmente estávamos focados em 4×4 ou SUV e tínhamos praticamente excluído vans por causa da limitada capacidade fora de estrada e pelos preços. Além disso, queríamos idealmente um carro com matrícula de WA.

Quatro veículos ficaram particularmente na memória. O primeiro foi um Toyota Land Cruiser 80 Series. Estava em bom estado e incluía uma tenda de tejadilho igual à que acabámos por comprar, além de ter já bastante equipamento de campismo. Funcionava a GPL, o que poderia reduzir custos apesar do consumo médio perto dos 20 L/100 km. No entanto, a disponibilidade de GPL fora dos centros urbanos é limitada na Austrália, o que anulava grande parte da vantagem. Tinha já mais de 400,000 km e, somando o consumo elevado e a idade, não nos pareceu a melhor opção. O vendedor, um backpacker alemão, estava a pedir $7500.

O primeiro SUV que considerámos foi um Mitsubishi Outlander, também com tenda e algum equipamento essencial. Era de um casal francês e pediam cerca de $5000. O carro parecia em bom estado e tinha quilometragem relativamente baixa (~180–200 mil km), mas havia uma fatura de substituição de correia de distribuição partida. Uma correia partida pode causar danos internos no motor, e apesar de o carro aparentar funcionar bem, não quisemos correr o risco, sobretudo porque os vendedores nem tinham consciência do significado mecânico do problema (tinha ocorrido com o proprietário anterior).

Outro candidato foi um grande SUV Ford (de dois irmãos alemães). Também tinha tenda e aparentava bom estado geral. O motor tinha reputação de fiabilidade e o João, que trabalhava na Ford, conseguiu que uma oficina da marca o inspecionasse gratuitamente. O diagnóstico foi claro: suspensão completamente desgastada, um problema comum deste modelo, com orçamento de cerca de $5000. Ficou imediatamente fora de hipótese.

Vimos ainda um Nissan X-Trail com matrícula de WA num stand pouco convincente. A condução não era boa e parecia haver fuga de óleo. Pediam $7000 para um carro com cerca de 160,000 km.

Depois destas desilusões, tivemos a ideia que acabou por definir tudo: comprar um carro em bom estado em Victoria e mais tarde mudar o registo para WA, permitindo vendê-lo em qualquer estado. Já estávamos bastante convencidos com o X-Trail de primeira geração, que cumpria quase todos os requisitos: espaço suficiente, potência adequada, consumos moderados, boa fiabilidade e um sistema de tração às quatro rodas suficientemente capaz para praias e estradas de terra.

Queríamos sair do alcatrão com alguma frequência, e um SUV AWD típico não nos dava total confiança. Após alguma pesquisa, percebemos que o X-Trail T30 tinha um sistema 4×4 selecionável relativamente competente. Não tem redutoras nem bloqueios, mas é mecanicamente mais robusto do que a maioria dos AWD urbanos.

O sistema tem três modos:

  • 2WD – tração dianteira, usado em estrada
  • Auto – envia tração atrás quando deteta perda de aderência
  • Lock – tração integral permanente (até ~80 km/h), usado em areia ou trilhos

Na prática, usávamos 2WD em asfalto, Auto em terra batida e Lock em areia ou secções mais exigentes (como em François Peron National Park).

Encontrámos o nosso carro no Gumtree (equivalente ao OLX) e estava num stand em Moorabbin, que ficava a um saltinho de Comboio. Temos de agradecer ao nosso amigo António, que nos levou até lá e também a ver outro X-Trail. O vendedor pareceu-nos honesto e tinha vários carros à venda, incluindo alguns clássicos pessoais.

O carro aparentava estar excelente, o que fazia sentido, considerando os apenas 89 000 km num veículo de 2005. A quilometragem baixa deixou-nos cautelosos, mas o estado do interior e exterior confirmava-a: bancos em pele praticamente sem desgaste, volante, manete e plásticos interiores em ótimo estado. Teve apenas uma proprietária anterior (descobrimos até uma fatura médica dela entre os documentos).

Comprámos também um relatório oficial australiano de histórico (PPSR), que custou apenas AU$2 e confirmou ausência de acidentes ou registos de roubo.

O motor é o 2.5 L a gasolina de quatro cilindros (~180 cv). Não é extraordinário, mas tem força suficiente para viajar carregado sem consumos excessivos. O stand pedia AU$6000 e, após uma noite a ponderar, avançámos. Como explicámos antes, o vendedor tratou da inspeção (roadworthy) e levantámos o carro poucos dias depois.

Os únicos pontos menos positivos eram a cor preta e os bancos em pele, nada ideais para o calor australiano. A cor tivemos de aceitar; para os bancos comprámos umas capas bege em tecido.

Durante o primeiro mês quase não conduzimos, porque ainda vivíamos no centro de Melbourne. O carro ficou em casa do António e usámo-lo apenas para comprar equipamento e numa viagem-teste até Bendigo (300 km), para garantir que tudo estava em ordem antes da partida.

O carro comportou-se perfeitamente, mas havia um problema que só surgiria mais tarde. Era primavera e ainda não fazia calor. No primeiro dia de viagem, à espera do ferry para a Tasmânia com cerca de 36 °C, notámos que o cruise control não ativava. No dia seguinte, apesar de temperaturas moderadas, a ventoinha do radiador estava constantemente ligada. Quando seguimos mais tarde para zonas mais quentes (até ~40 °C), ficou claro: havia um problema no sistema de refrigeração. Em subidas, o ponteiro de temperatura subia, o ar condicionado desligava e o cruise control desativava.

Diagnosticámos que poderia ser radiador parcialmente obstruído ou termóstato preso fechado. Para desenrascar temporariamente, conduzíamos com aquecimento ligado ao máximo e janelas abertas, o que foi uma aventura com calor e fumo dos incêndios de 2019/20, mas suficiente até regressarmos a Melbourne.

A reparação incluiu radiador novo, dois termóstatos (o modelo tem dois), pastilhas traseiras, uma junta homocinética e alinhamento. Custou cerca de $1200. Podíamos ter substituído apenas termóstatos, mas optámos por fazer tudo preventivamente (o radiador acrescentou ~$300). O mecânico era de confiança (ligado ao vendedor).

Todos os componentes substituídos eram de desgaste normal para a idade do carro. Depois disso fizemos cerca de 30,000 km ao longo de vários meses sem qualquer outro problema, com temperaturas máximas de 52 °C, e o X-Trail nunca deu qualquer problema.

7. Equipamento e organização

Como o nosso X-Trail não era uma carrinha, tivemos de pensar bem na forma como organizávamos o espaço para conseguir viajar e viver confortavelmente durante vários meses. A filosofia foi simples: manter tudo o mais compacto e funcional possível, com montagem e desmontagem rápidas, e sem encher o carro de equipamento desnecessário.


Dormir

A principal peça do nosso setup era a tenda de tejadilho. Permitia-nos montar a cama em poucos minutos, dormir fora do chão e manter o interior do carro livre para arrumação. O colchão já vinha integrado e acrescentámos apenas dois sacos-cama e duas almofadas. Tornava o fecho um pouco mais apertado, mas preferíamos manter tudo lá dentro.

Foi a nossa primeira experiência com uma tenda de tejadilho e gostámos muito. Na Austrália são comuns e relativamente baratas, mas noutros países tornaram-se moda e os preços são bastante mais altos. Em comparação com uma tenda de chão, achámos muito mais confortável e prática: mais espaçosa, mais rápida de montar e fechar, e entrar pela escada é mais fácil do que andar de joelhos. Em contrapartida, dormir em terreno inclinado sente-se mais por estar em altura, e o vento também se nota mais.


Cozinhar

Cozinhávamos sempre no exterior. Usávamos um fogão portátil de um bico a gás, com cartuchos standard fáceis de encontrar. Levávamos uma panela média, uma frigideira e utensílios básicos, tudo numa caixa dedicada para ser rápido montar e arrumar. A simplicidade do sistema fez com que cozinhar diariamente fosse fácil e sem complicações. Na Austrália é também muito comum encontrar áreas de descanso com barbecues elétricos públicos. Muitas vezes cozíamos arroz ou massa no nosso fogão e grelhávamos carne ou peixe nesses barbecues.


Água e comida

Transportávamos água em três jerricans de 10 litros. Inicialmente tínhamos um de 10 e outro de 20, mas trocámos o de 20 por ser demasiado pesado quando cheio. Num deles instalámos uma pequena torneira de plástico para facilitar o uso diário. A comida seca ia em caixas fechadas para evitar pó e insetos, e os frescos num frigorífico. Ter frigorífico foi uma das melhores decisões que tomámos, porque permitia levar frutas e vegetais, carne, peixe e também manter água fresca, muito valorizado no clima australiano!


Energia

Numa viagem desta duração, uma segunda bateria não é absolutamente obrigatória, mas no nosso caso tornou-se essencial. Carregar telemóveis não seria um problema, porque o podíamos fazer em andamento e com powerbanks, mas tínhamos vários dispositivos (drone, camâras, etc) e precisávamos de energia com o motor desligado para alimentar o frigorífico.

Instalámos uma bateria AGM de 98 Ah, dentro de uma caixa própria, ligada à bateria principal através de um circuito de proteção e de isolamento. Carregava durante a condução, e tínhamos também um painel solar dobrável de 160 W para quando ficávamos vários dias no mesmo local. Tínhamos ainda um inversor de 200 W para obter 230 V, o que permitia carregar portátil e as baterias do drone.

Para iluminação usávamos uma lanterna LED recarregável com intensidade ajustável e luz vermelha. Tinha um gancho retrátil, o que a tornava ideal para pendurar dentro da tenda.


Organização

Para manter pelo menos um dos bancos traseiros livre para eventuais passageiros, guardávamos toda a roupa nas nossas mochilas (55 L e 40 L), organizadas com packing cubes. O encosto traseiro do lado do condutor ficava rebatido, onde colocámos o frigorífico. A bateria ficava no centro da bagageira, junto ao encosto, e o restante espaço era ocupado por caixas, jerricans, cadeiras e mesa dobrável.

No piso dos bancos traseiros guardávamos os sapatos de um lado e o fogão e cartuchos de gás do outro. Para manter tudo acessível e organizado usávamos caixas plásticas com tampa, onde ficavam comida seca, especiarias, talheres e outros essenciais.


Equipamento extra

Algumas coisas que também eram úteis: mesa e cadeiras dobráveis, pá pequena para areia, kit básico de ferramentas e compressor de ar. Não eram absolutamente essenciais, mas aumentavam bastante o conforto e a autonomia.

8. Distâncias

Os europeus, e principalmente os portugueses, não têm a mínima noção do que são as distâncias e o isolamento na Austrália. Não escrevemos isto de forma pejorativa; nós também fazíamos parte desse grupo, até nos pormos à estrada.

A Austrália tem 84 vezes a área de Portugal e tem pouco mais do dobro da população. Se Portugal tivesse a mesma densidade populacional, teria apenas cerca de 300,000 habitantes, o equivalente às populações combinadas de Coimbra e Vila Nova de Gaia. Cidades como Sydney e Melbourne, com populações metropolitanas na ordem dos 5 milhões, fazem Lisboa parecer uma aldeia, mas estas duas em conjunto com Brisbane, Perth e Adelaide, são as únicas cidades acima de meio milhão de habitantes. Juntas, as áreas urbanas destas cinco cidades (que ocupam menos de 1% do território) concentram 65% da população. Para comparação, as 10 maiores áreas urbanas de Portugal têm 50% da população, e cerca de 60% da população distribui-se por aproximadamente 9% do país. Na prática, isto significa que grande parte da Austrália é efetivamente remota e com muito pouca (ou nenhuma) infraestrutura entre regiões.

Entre Yalata (SA), e Eucla (WA), distam 300 km, a mesma distância entre Lisboa e Porto. Entre estas duas localidades, que em conjunto têm cerca de 300 habitantes, não existe absolutamente mais nenhuma povoação e apenas quatro bombas de gasolina, sendo que três ficam a menos de 12 km das povoações. Da próxima vez que conduzires de Lisboa para o Porto, repara em quantas cidades, vilas, aldeias, bombas de combustível e supermercados existem no caminho. Nesse troço australiano há uma única bomba, e esta nem é, de longe, a maior distância sem combustível no país.

A distância entre Melbourne e Sydney é de quase 900 km, e esta é uma das mais curtas entre grandes cidades australianas. Durante a pandemia, estávamos em Broome quando o governo começou a falar em fechar fronteiras entre estados. Tivemos de decidir rapidamente: conduzir 1100 km até à fronteira com o Northern Territory, ou voltar para Perth, apenas 2300 km.

Tudo isto tem implicações diretas no planeamento da viagem: obriga a fazer escolhas, gerir combustível e ter atenção ao tempo de deslocação. Atravessar a Europa de uma ponta à outra pode ser uma distância semelhante, mas nunca estás tão isolado. Faz pensar o quão pequeno e não isolado o Alentejo é, na realidade.

9. Conduzir à esquerda

Se nunca conduziste pela esquerda, pode parecer intimidaste, mas habituas-te surpreendentemente rápido. Para nós, que já tínhamos vivido e conduzido quatro anos no Reino Unido, não fez qualquer impressão. O maior perigo costuma ser nas rotundas e ao sair de parques de estacionamento, quando o cérebro reverte para o automático.

O que realmente dificulta a condução em zonas remotas são os road trains, camiões com dois, três ou até quatro atrelados, podendo atingir 50 a 60 metros de comprimento. Ultrapassá-los em estrada de alcatrão já exige distância e cuidado; em estrada de terra batida, a nuvem de pó que levantam torna a ultrapassagem muito difícil e potencialmente perigosa. Espera pela oportunidade certa e não te apresses.

10. Vida selvagem

Nunca tivemos qualquer problema sério com a vida selvagem, mas há alguns animais aos quais deves prestar atenção.

Evita aranhas pequenas como a red-back e a funnel-web — são venenosas e podem ser mortíferas, mas existem antídotos. Se fores picado, liga imediatamente para os serviços de emergência. Cobras também existem em abundância: fazem mais barulho ao caminhar para as afastar, pois têm mais medo de nós do que nós delas. Nós vimos algumas ao longo da viagem, mas mantivemos sempre distância e não houve problemas. Uma forma de evitar que pequenas (e perigosas) aranhas, assim como formigas e outros rastejantes de subirem para o carro, era usar inseticida à volta dos pneus antes de abrirmos a tenda.

Cangurus e koalas são fofinhos, mas podem ser agressivos e têm garras muito afiadas, não te aproximes demasiado. Dingos são cães selvagens e ataques a humanos são raros, mas trata-os como tratarias um cão grande e desconhecido. A nossa última noite em tenda num parque nacional foi passada com uma alcateia a uivar mesmo ao nosso lado; foi assustador, mas não houve qualquer incidente. Os cassowaries parecem avestruzes mas são bem mais agressivos; raramente atacam sem provocação, mas quando o fazem podem magoar seriamente. Mantém distância e deixa-os em paz, já que considerados as aves mais perigosas no mundo

No mar, segue sempre os avisos locais e online, especialmente para alforrecas, tubarões e crocodilos. No norte do país, os crocodilos de água salgada existem em abundância, e são extremamente perigosos e agressivos. Em época de cheias podem subir pelos rios e aparecer em zonas de água doce muito além do que seria de esperar.

Não são perigosas, mas são as criaturas mais irritantes que já encontrámos em qualquer país: as moscas australianas. Aos milhares, metem-se nos olhos, nos ouvidos e na boca, e ao contrário das europeias não fogem. As horse flies também são outro nível, porque têm partes bucais cortantes e a picada dói mesmo. Não há muito a fazer além de usar uma rede mosquiteira na cabeça. Ouvimos dizer que plantas de manjericão as afastam, mas não testámos.

11. Clima

Tal como as distâncias, a maior parte das pessoas não tem noção do quão quente pode ser a Austrália. Portugal é um país (muito) quente no verão, e por vezes insuportável, mas a Austrália consegue estar noutro nível. Muitas zonas não baixam dos 40 ºC durante várias semanas seguidas, sem árvores nem água à vista. O pior que apanhámos foram 52 ºC em Norseman (WA), onde parámos apenas para um duche antes de seguir para a costa onde estavam uns agradáveis 28 ºC. A diferença em 2 horas de condução foi brutal.

O norte é tropical: as temperaturas não atingem os 40 ºC tão facilmente, mas andam acima dos 35 durante meses com humidade acima dos 80%, o que torna a sensação térmica muito pior. O sul perto da costa é mais comparável ao clima português, mas mais ameno no inverno. A Tasmânia é o estado mais fresco, por ser o mais a sul e o mais montanhoso.

Os incêndios são uma realidade séria, especialmente no verão. Nós vivemos o verão negro de 2019/20 na Austrália e foi uma experiência assustadora. Segue sempre os avisos das autoridades locais, no rádio e online.

12. Fusos horários

A Austrália tem três fusos horários principais, mas a realidade é mais complicada do que isso. A Eastern Standard Time (EST) cobre Queensland, New South Wales, Victoria e Tasmânia. A Central Standard Time (CST) cobre South Australia e Northern Territory, com apenas 30 minutos de diferença em relação ao leste, o que é incomum. A Western Standard Time (WST) cobre a Western Australia, com 2 horas de diferença em relação ao leste.

A complicação extra é que nem todos os estados seguem o horário de verão. Queensland, Western Australia e Northern Territory não o fazem. Isto significa que a diferença horária entre estados muda consoante a época do ano. Na prática, se estiveres a coordenar chamadas com família em Portugal ou a planear atravessar vários estados, vale a pena verificares sempre a hora local, já que não é intuitivo e é fácil enganares-te.

13. Road Trip

A nossa viagem começou a 9 de dezembro de 2019, a bordo de um ferry em Melbourne rumo à Tasmânia. Passámos 12 dias a explorar a ilha e regressámos depois ao continente para celebrar o Ano Novo em Sydney. A partir daí seguimos para oeste com um objetivo: fazer a Big Lap, a rota que contorna praticamente todo o continente australiano.

Ao longo de cerca de 28.000 km, conduzimos quase todos os dias. Tínhamos uma rota base e vários pontos assinalados no mapa, mas mantivemos sempre alguma flexibilidade para ajustar o plano consoante o tempo, o clima ou simplesmente a vontade de ficar mais um dia. Houve poucas paragens longas, o ritmo era constante, movidos pela dimensão do país e pela curiosidade de continuar a avançar.

Uma das coisas que mais nos marcou foram as distâncias. Conduzir 300 km sem passar por uma única povoação é algo difícil de imaginar vindo de Portugal. A escala da Austrália sente-se verdadeiramente na estrada. Travessias como a Nullarbor ou troços intermináveis no interior fazem-nos perceber o que significa isolamento em grande escala. Mesmo quando a paisagem não muda durante horas, há uma sensação constante de espaço e liberdade.

A Tasmânia foi claramente o estado mais diferente do continente: mais compacta, mais verde, com mudanças de paisagem mais rápidas. Já no continente, especialmente em Western Australia, tudo parecia mais vasto e selvagem. As paisagens demoravam a mudar. A combinação da terra vermelha com o azul turquesa do oceano na zona de Shark Bay é difícil de descrever.

Mas nem tudo foi fácil. Viajámos durante o verão australiano e enfrentámos temperaturas extremas, com máximas a atingir os 52 °C e muitos dias acima dos 40 °C. Os incêndios florestais foram outro desafio constante, o fumo, estradas condicionadas e a consciência de que o país estava a atravessar um momento difícil. O isolamento, por estarmos os dois, nunca foi um problema real, mas sente-se a distância quando se atravessam regiões remotas.

Algo que toda a gente nos pergunta e que também nos meteu alguma receio era a vida selvagem, mas honestamente, foi tranquilo. Vimos duas cobras (e nem temos a certeza da segunda), vimos aranhas gigantes, mas quanto maiores menos perigosas, e claro algum receio dos tubarões no mar, mas correu tudo bem.

Em meados de março, já em Broome, começámos a perceber que a situação da COVID-19 iria alterar a viagem. Supermercados com falhas de stock e notícias sobre possíveis fechos de fronteiras fizeram-nos antecipar decisões. Seguimos para o Northern Territory (NT) antes de restrições mais apertadas e acabámos por ficar na zona de Darwin numa fase particularmente incerta. A partir daí, o plano inicial deixou de fazer sentido.

A 23 de março ainda visitámos um parque nacional, mas nessa noite ficámos num Airbnb. Acabámos por ficar uma semana, e depois mais outra de graça a troco de trabalho. Como não havia mais trabalho para nós, a irmã da dona da casa, que morava na casa ao lado, ofereceu-nos a nós e a um casal amigo ficarmos num anexo. Ficámos mais uma semana, mas depois decidimos sair do NT e daquela humidade horrível e seguir rumo a Brisbane.

A irmã era nada mais nada menos do que a Speaker do Parlamento do NT, e por isso escreveu-nos uma carta para que pudéssemos passar a fronteira. Devido à COVID, só era permitido atravessar a fronteira se cumpríssemos determinadas condições, como ser residentes. Não era o nosso caso, por isso, com a carta, apelámos a circunstâncias extraordinárias: o nosso objetivo era sair do país, e não o podíamos fazer a partir do NT.

Na fronteira encontrámos um grande aparato militar. Depois de várias horas de espera, porque escolhemos o domingo de Páscoa para fazer a travessia, foi-nos dada autorização pelo Ministro da Saúde de Queensland para entrar. Seguimos então para Brisbane, onde ficámos em casa de um casal português que já se tinha oferecido anteriormente para nos receber.

No final de abril, e já em Brisbane, acabámos por vender o carro por um valor inferior ao que esperávamos, consequência direta da instabilidade da altura. Vendemos a uma Portuguesa que tínhamos conhecido em Sydney em Janeiro. Ainda conseguimos explorar Brisbane e Gold Coast, e regressámos a Sydney por onde acabámos por deixar o país a meio de maio.

Não conseguimos completar tudo o que tínhamos planeado, especialmente no Northern Territory e Queensland, mas consideramos que tivemos sorte. Muitos backpackers chegaram já em fevereiro, compraram carros a preços inflacionados e poucas semanas depois estavam a vendê-los em pânico sem terem conseguido explorar praticamente nada. Nós conseguimos viver grande parte da experiência que procurávamos.

Se fizéssemos novamente, talvez ficássemos mais tempo em alguns locais e menos noutros. Mas a essência da viagem, a escala, a liberdade da estrada e a diversidade das paisagens, ficou connosco.

14. Custos

Passámos cerca de 130 dias em viagem, e no total gastámos cerca de $11,200 com o carro, o equivalente a pouco menos de 7,000€. No final da viagem vendemos o carro com todo o equipamento por $7,000/4350€, o que significa que o custo no final foi de $4,200/2650€. Alugar uma minivan (o veiculo mais barato onde dá para dormir) iria ficar no mínimo a uns $16,000/10,000€, quase 5x mais!

Compra

O carro custou-nos $5995.

Reparações

Gastámos $1777 com todas as reparações. Para além dos $1220 que já tínhamos referido mais acima, também partimos o vidro traseiro o que nos custou $420. Este foi um custo desnecessário e 100% culpa nossa.

Manutenção

Óleo, filtros, travões e lâmpadas, tudo perfeitamente normal. Tanto os travões como os pneus estavam em condições antes e depois da viagem.

Impostos

Transferência VIC, inspeção WA, rego.

Seguros

Seguro contra terceiros (roubo e fogo) e assitência em viagem. O valor inclui os dois estados, e só apra o tempo em que estiveam activos.

Campismo (equipamento)

Todo o equipamento de campismo. A Tenda, frigorífico, bateria e painel solar representam mais de 80% do valor.

Acessórios

Ferramentas

Compressor, mala de ferramentas, jerrycan gasolina, extintor, entre outros.

Publicado em 2020 · Atualizado em 2026