Comprar um carro usado

Se chegaste a este guia através de um motor de busca, a informação que encontras aqui é útil e válida, mas o principal objetivo é ajudar quem quer comprar um carro usado para fazer uma road trip nos países onde já o fizemos ao longo de vários meses: Portugal, Austrália, Canadá e EUA.

Ao longo das nossas viagens cruzámo-nos com muitos backpackers e outras pessoas que fizeram as escolhas mais variadas, e vamos usar essas experiências, em conjunto com o que aprendemos no terreno, para te ajudar a perceber o que faz mais sentido para o teu caso.

  1. Carro convencional
  2. Minivan
  3. Carrinha (van)
  4. SUV
  5. 4×4 (off-road)
  6. Combustível
  7. Caixa de velocidades
  8. Tipos de transmissão
  9. Pneus
  10. Dicas gerais
  11. O que verificar antes de comprar

1. Carro convencional

O típico carro “normal”, incluindo versões station wagon. Apesar da enorme oferta e dos preços acessíveis, não é geralmente a melhor opção para quem pretende viajar e viver no veículo durante vários meses. O espaço é limitado e a baixa altura ao solo restringe bastante a circulação fora de estrada. Existem modelos AWD, mas este sistema de tração serve sobretudo para aderência em piso escorregadio, chuva ou neve, e continuam a ser limitados em terreno acidentado. Ao longo das nossas viagens vimos muito poucos a ser usados em road trips longas.

É o que usamos em Portugal pelo simples facto de ser o nosso veículo do dia a dia, e dormimos nele apenas alguns dias de cada vez. Temos uma Peugeot 406 1.8i de 2000 na versão carrinha, o que nos permite rebater os bancos e ter uma superfície plana para colocar um colchão. No dia a dia também tem a sua utilidade, como transportar móveis e eletrodomésticos.

Vantagens: baratos, baixo consumo e muita oferta.
Desvantagens: pouco espaço e capacidade fora de estrada muito limitada.

2. Minivan

Na prática são carros maiores, com muito mais espaço interior e flexibilidade. São muito comuns na América do Norte, onde existem modelos maiores e mais abundantes do que na Europa ou na Austrália. Não têm o espaço de uma van convertida, mas são perfeitamente habitáveis para duas pessoas durante vários meses, e foi a nossa escolha para a nossa road trip no Canadá e EUA.

O que mais gostámos foi a relação entre espaço exterior e interior. Ocupa praticamente o mesmo espaço na estrada que um carro normal, tem consumos e custos de manutenção semelhantes, mas o espaço interior é incomparavelmente maior. As portas de correr também facilitam imenso o acesso ao interior. Para quem quer conforto sem os custos e o tamanho de uma van, é provavelmente a melhor opção.

Vantagens: relativamente baratas, consumos moderados e espaço suficiente para duas pessoas.
Desvantagens: capacidade fora de estrada limitada e menos espaço do que uma carrinha.

3. Van

São uma das opções mais recomendadas para quem quer viver na estrada durante vários meses. Oferecem muito espaço interior e permitem conversões confortáveis, com isolamento, e até chuveiro e WC integrados.

Nós descartámos esta opção no estrangeiro por várias razões. O custo era superior, mas também não queríamos ter tanto dinheiro parado num veículo que teríamos de vender à pressa no final das viagens. Na Austrália pesou ainda o facto de querermos sair do alcatrão com alguma frequência, e muitas vans já convertidas estavam claramente sobrevalorizadas. Existem versões 4×4 como a Mitsubishi Delica, mas são raras e caras. Mesmo nas versões 2WD, a altura ao solo é geralmente superior à de um carro convencional ou minivan, o que já ajuda em terrenos mais difíceis. As caravanas não são a mesma coisa, mas podem ser consideradas uma categoria semelhante em termos de espaço e conforto.

Vantagens: muito espaço, conforto e versatilidade para viver no veículo.
Desvantagens: capacidade fora de estrada limitada na maioria dos modelos e preços elevados quando já equipadas

4. SUV

Um SUV é um compromisso entre um carro convencional e um 4×4. Oferece maior altura ao solo e, em muitos casos, sistemas de tração preparados para off-road (ligeiro). A maioria não tem a robustez nem os sistemas mecânicos de um verdadeiro 4×4, e muitos só servem para subir passeios… As capacidades variam bastante entre modelos: alguns são apenas 2WD, outros AWD e poucos são 4×4.

Na Austrália comprámos um Nissan X-Trail de primeira geração com tração às quatro rodas. No Canadá também foi a nossa opção inicial, mas os preços elevados devido à escassez de modelos sem ferrugem fez-nos descartar a hipótese. Também nos apercebemos que seriam muito poucos os sítios onde iríamos tirar proveito disso, e que a altura ao solo seria bem mais importante.

Vantagens: versáteis, mais capazes que um carro em piso irregular e consumos moderados.
Desvantagens: menos capazes que um 4×4 fora de estrada e menos espaço que uma carrinha.

5. 4×4

Se o teu objetivo inclui conduzir fora de estrada com regularidade, um verdadeiro 4×4 pode ser a melhor opção. Têm maior altura ao solo, tração às quatro rodas, e em alguns casos redutoras e bloqueios de diferencial, características essenciais em terreno difícil.

Na Austrália queríamos acesso a praias, estradas de terra e zonas remotas, mas sem entrar em rotas mais extremas como a Gibb River Road ou Cape York, onde já são necessários veículos bem preparados, experiência e margem para manutenção e reparações. Por isso optámos por um SUV com sistema 4×4, que foi o suficiente para o que pretendíamos.

Vantagens: a melhor capacidade fora de estrada.

Desvantagens: consumos e custos de manutenção mais elevados; podem exigir preparação adicional para off-road mais exigente.

6. Combustível

A escolha do combustível é uma dúvida comum na compra de qualquer veículo. Num carro usado com alguns anos, podemos excluir à partida elétricos e híbridos, o que deixa gasolina, diesel ou GPL.

Pessoalmente não somos fãs de diesel, em parte por preferência, mas também por razões técnicas e ambientais. Contrariamente à perceção comum, motores diesel tendem a emitir mais óxidos de azoto e partículas do que equivalentes a gasolina, especialmente em condução urbana e em veículos mais antigos. Emitem menos CO₂, que não é um poluente, e isso não compensa necessariamente os outros poluentes. Ainda assim, a escolha depende sobretudo do tipo de utilização.

Na Austrália e América do Norte, um diesel pode compensar pelo menor consumo, sobretudo em veículos pesados ou 4×4. No entanto, a gasolina é bem mais barata do que em Portugal, e a diferença de consumo em carros ligeiros ou num SUV pode não justificar o maior preço de compra e manutenção, e convém fazer contas com base no veículo específico. O diesel pode ser uma vantagem logística, já que em zonas muito remotas da Austrália, como a Gibb River Road, só existe gasóleo disponível.

Até hoje, a nossa escolha foi sempre gasolina. Tanto o X-Trail como a Sienna tinham consumos moderados para o seu tamanho, potência suficiente para o que precisávamos, e motores comuns e baratos de manter. Em Portugal a escolha da 406 foi mais pelo que estava disponível. Queríamos uma carrinha a gasolina com alguns anos, por serem mais fáceis de manter. Calhou ser esta, mas considerámos outras opções como a Ford Focus de primeira geração e a Honda Aerodeck.

7. Caixa de velocidades

A escolha entre caixa manual ou automática depende sobretudo da preferência pessoal e do mercado disponível. O João prefere caixa manual e a Bárbara automática, mas no Canadá e nos EUA as caixas manuais são raríssimas, por isso a nossa escolha foi forçosamente automática. Na Austrália são um pouco mais comuns, e no nosso caso calhou ser manual por ser o carro certo, mas se tivesse surgido o mesmo modelo em automático nas mesmas condições, teria sido igualmente uma opção válida.

A principal vantagem da automática é a condução em cidade ou trânsito, algo pouco relevante nas road trips que fazemos. Tecnicamente, as caixas automáticas são mais complexas e caras de reparar em caso de avaria, e em modelos mais antigos podem ter consumos ligeiramente superiores, embora em veículos mais recentes essa diferença seja muitas vezes negligenciável.

A 406 é manual, o que não surpreende num carro português do ano 2000.

8. Tipos de transmissão

O tipo de transmissão define como a potência do motor chega às rodas. Pode ser apenas num eixo (2WD) — à frente (FWD) ou atrás (RWD) — ou em ambos (AWD ou 4WD). Se já tiveste carro em Portugal, o mais provável é ser FWD. Algumas marcas usam RWD nalguns modelos, mas para utilização normal de estrada a diferença prática é pequena. Sendo ambos 2WD, não é algo com que te deves preocupar para uma road trip.

4WD (4×4) implica tração nos dois eixos através de um sistema mecânico com ligação direta, normalmente selecionável pelo condutor. Em muitos veículos permite alternar entre 2WD e 4WD para reduzir consumos em estrada. É o sistema mais robusto fora de estrada e o típico dos verdadeiros todo-o-terreno. Inclui frequentemente redutoras, que permitem mais força a baixa velocidade em terreno difícil, e bloqueios de diferencial, que evitam perda de tração quando uma roda patina. Isto torna-os claramente superiores fora de estrada, mas também mais pesados, caros de manter e com maiores consumos.

O X-Trail que tínhamos na Austrália, apesar de ser um SUV, tinha tração às quatro rodas selecionável (2WD / Auto / Lock), mas sem redutoras nem bloqueios de diferencial. Não é um 4×4 “puro”a sério”, mas é significativamente mais capaz fora de estrada do que um SUV com AWD.

AWD (All Wheel Drive) é diferente do 4WD. A distribuição de tração entre eixos é automática e gerida pelo próprio veículo, sem ligação mecânica rígida nem redutoras. Funciona muito bem em piso escorregadio, chuva, neve ou gravilha, mas não foi concebido para off-road técnico. A distribuição de potência raramente é 50/50 como num 4×4.

Em resumo:

  • 2WD → estrada
  • AWD → estrada, piso irregular leve e condições climatéricas adversas
  • 4WD → off-road real

Para a maioria das road trips na Austrália, AWD ou um 4WD como o do X-Trail é mais do que suficiente. Um 4×4 a sério só é necessário para rotas mais exigentes. Na América do Norte e em Portugal, um SUV com AWD é sempre vantajoso, mas não perdes muito por teres um 2WD. Tanto a 406 como a Sienna são FWD, e mesmo tendo apanhado alguns sustos, nunca nos deixaram ficar mal, fora da estrada ou na neve.

9. Pneus

Os pneus são um tema importante, mas podem ter mais impacto na segurança e tração do que o próprio tipo de transmissão. Em condições de chuva e neve, pneus de inverno fazem mais diferença do que ter AWD ou 4WD. Existem também pneus mistos e off-road, mas só os deves considerar se andares muitas vezes fora do alcatrão, porque são caros e desgastam-se mais rapidamente em estrada.

No Canadá, tens quatro tipos principais:

  • All-season: o mais comum, mas são uma escolha medíocre para tudo. No inverno canadiano, ficam rapidamente no limite.
  • All-weather: opção intermédia que já inclui o símbolo de montanha com floco de neve, tornando-os legais nas províncias onde pneus de inverno são obrigatórios. Para algumas viagens pode ser uma boa solução.
  • Winter (inverno): feitos para temperaturas abaixo dos 7°C, com composto mais macio e muito melhor tração em neve e gelo. Para viajar no inverno no Canadá são praticamente obrigatórios, mesmo que a lei não o exija.
  • Studded: tração brutal em gelo, mas só são permitidos em algumas províncias e em certas épocas do ano.

Províncias como o Quebec e British Columbia obrigam ao uso de pneus de inverno durante parte do ano. Em Ontário não são obrigatórios, mas são altamente recomendados, e o seguro pergunta se os tens. Se alugares um carro no inverno num país/província/estado onde pneus de inverno são obrigatórios, confirma se traz, porque a responsabilidade é tua em caso de multa ou acidente.

Outra diferença em relação a Portugal é que muitos canadianos têm dois conjuntos de jantes, umas para os pneus de inverno e outras para os de verão. Facilita a troca sazonal e evita danificar as jantes principais.

Quando comprares um carro usado, confirma sempre o estado e o tipo dos pneus e a idade, pneus com mais de cinco a seis anos perdem eficácia. No Canadá, confirma se o vendedor inclui pneus de inverno no negócio.

10. Dicas gerais

  1. Verifica o histórico e documentação
    Pede o VIN (Número de Identificação do Veículo) ou a matricula e usa-os para obter um relatório histórico. Vais saber se já teve acidentes, problemas de registo ou outros detalhes relevantes. Confere também se o VIN/matricula coincide com o dos documentos e se o vendedor tem os documentos em ordem para o poder vender.
  2. Escolhe marca e modelo comuns
    Procura carros que atendam às tuas necessidades, lê análises e percebe os custos típicos de manutenção. A nossa recomendação é escolher algo comum, porque é mais fácil arranjar peças, mecânicos e resolver problemas. Na Austrália predominam marcas japonesas (Toyota, Nissan, Mitsubishi), e isso pesou na escolha do X-Trail, e na América do Norte a Toyota é uma marca muito comum e com uma fiabilidade reconhecida.
  3. Define um orçamento
    Deves determinar quanto estás disposto a gastar, incluindo o preço de compra, impostos, seguro e possíveis reparações.
  4. Inspeção e test drive
    Se possível, contrata um mecânico para uma inspeção pré-compra (foi o que fizemos no Canadá). Se não for opção, faz tu uma inspeção básica: sinais de desgaste, ferrugem profunda e eventuais problemas mecânicos. Depois faz um test drive e presta atenção a sons anormais, vibrações e ao comportamento em estrada.
  5. Histórico de manutenção
    Pede os registos de manutenção, quando existem. Um histórico organizado é um excelente indicador de que o carro foi cuidado ao longo dos anos.
  6. Não tomes decisões precipitadas
    Se algo não te parece bem, seja o carro, o vendedor ou o negócio em si, afasta-te. Há muitos carros usados e vale mais ser cauteloso. Ter um amigo ou familiar contigo ajuda, nem que seja para ter mais um par de olhos e uma opinião adicional.

11. O que verificar antes de comprar

Se possível, marca a visita de manhã ou durante o dia, à noite é muito mais difícil detetar problemas, fugas e desgaste. Tenta também ver o carro frio, ou seja, antes de o vendedor o ter ligado. Um arranque fácil a frio é um bom sinal; dificuldades podem indicar problemas no motor, na bateria ou no motor de arranque.

Se o carro tiver estado parado algum tempo, olha para o chão por baixo — manchas de óleo ou de anticongelante são red flags imediatas. Num carro que foi ligado pouco antes, essas manchas podem não aparecer, por isso vale a pena perguntar há quanto tempo está ali.

Com o motor a trabalhar, verifica se o ralenti está estável. Um motor mais antigo não vai ser perfeito, mas não deve dar picos, especialmente já quente. Deixa-o trabalhar alguns minutos e, se conseguires, fica preso no trânsito um bocado, é a melhor forma de perceber se o carro sobreaquece.

O sobreaquecimento é um dos problemas mais sérios que podes encontrar num carro usado. Foi o que nos aconteceu na Austrália com o nosso Nissan X-Trail: comprámos no inverno, sem sinais óbvios de problema, mas quando chegou o calor, e os incêndios de 2019/20, com temperaturas acima dos 45 ºC, o AC parou de funcionar, o cruise control também, e o motor começava a aquecer nas subidas. A solução temporária foi ligar a sofagem no máximo para dissipar calor, até chegarmos a Melbourne. Era o termóstato preso e o radiador entupido, duas peças do sistema de arrefecimento que substituímos ao mesmo tempo. Menos de 400 dólares, mas aprendemos da forma mais difícil.

Um carro que sobreaquece repetidamente arrisca queimar a junta da cabeça, e quando isso acontece, a água e o óleo misturam-se no motor. É uma avaria cara e, na maioria dos casos, razão suficiente para desistir do negócio. Para detetar sinais disto antes de comprar, faz duas verificações simples: olha para o vaso de expansão do anticongelante: se o líquido tiver um aspeto leitoso ou acastanhado, como café com leite, há água misturada com óleo. Depois do motor quente, tira a tampa onde se enche o óleo, se tiver depósitos com esse mesmo aspeto cremoso, foge.

Verifica também o nível do óleo com a vareta. Um carro com falta de óleo pode indicar consumo elevado ou descuido do proprietário, ambos são problemas. Faz um test drive com calma, presta atenção a sons anormais, vibrações, e ao comportamento em travagem e em curva.

Para uma inspeção mais completa, a checklist do ChrisFix é um recurso excelente, talvez detalhada demais para uma compra informal, mas útil para não te esqueceres nada importante: How to Inspect a Used Car Checklist – ChrisFix