Viver e viajar num carro a tempo inteiro é uma das experiências mais libertadoras que já tivemos, e também uma das mais desafiantes. Ao longo de vários meses na Austrália, no Canadá e nos EUA, e após várias road trips por Portugal e Espanha, aprendemos muito sobre o que funciona, o que falha, e o que nunca voltaríamos a fazer.
Este guia nasceu dessas experiências. Não é um manual teórico, mas sim o que aprendemos na prática, muitas vezes da forma mais difícil. Abrange vários temas e dicas gerais que se aplicam a qualquer tipo de veículo, seja um carro, uma carrinha ou uma caravana.
“Take only memories, leave only footprints” – Chief Seattle
Há muitas frases feitas sobre viagens e van life, mas esta é sem dúvida aquela com que mais nos identificamos, principalmente na versão que substitui memories por photographs. Vamos ser diretos: as pessoas são porcas! Perdemos a conta aos sítios por onde passámos ou dormimos que estavam cheios de lixo; comida, plásticos e até papel higiénico. Isto não é só um desrespeito tremendo pela natureza e pelas outras pessoas, como faz com que os governos locais e nacionais imponham cada vez mais restrições. Não custa absolutamente nada comprar sacos de lixo, encher e descartar nos locais corretos.
- Expectativas vs realidade
- APP’s
- Onde dormir
- Higiene pessoal
- Cozinhar e encontrar água
- Energia e iluminação
- Organização e armazenamento
- Ferramentas e equipamento de emergência
- Segurança
- Conectividade
- Rotina diária e entretenimento
- Impacto mental
- Portugal e Espanha
Viajar num veículo é romantizado nas redes sociais, mas a realidade é bem mais complexa: é uma experiência que não é para todos e que pode variar imenso dependendo do veículo, do destino e da duração da viagem. Nós não somos fãs de campismo tradicional, preferimos uma tenda de tejadilho ou dormir no carro a uma tenda no chão.
Há também uma diferença enorme entre dormir num carro convencional e viver numa carrinha convertida ou caravana. Estas oferecem muito mais conforto, mais espaço, cama fixa, e por vezes WC e cozinha integrados, e por isso o desafio é muito menor. São mais caras de comprar ou alugar, gastam mais combustível e dão mais nas vistas em zonas onde estacionar discretamente faz diferença.
A principal razão pela qual escolhemos esta forma de viajar foi o custo e a flexibilidade. Na viagem pelo Canadá e EUA, que foram quase 250 dias, um quarto de hotel mesmo barato (40€ por noite) teria custado no mínimo 10.000€, enquanto que a conversão do carro para dormir ficou por menos de 2.000€. Mas os custos são só metade da equação. Dormir no carro dá-nos uma flexibilidade que um hotel nunca consegue, já que podemos dormir praticamente em qualquer lado, estar num sítio específico ao amanhecer sem ter de madrugar, evitar filas e turismo excessivo, ou ficar a noite toda num lugar para fotografar as estrelas sem ter de conduzir de volta. Na Austrália a lógica foi a mesma.
Já nas road trips que fazemos por Portugal e Espanha, a abordagem é diferente já que nem sempre dormimos no carro. Se o objetivo for descanso ou se estiver frio, ficamos num alojamento, mas se for para estar próximo de praias ou fotografar, dormimos no carro. E nestes casos fazemo-lo sem grande equipamento, sem bateria extra ou frigorífico, porque são apenas alguns dias e não vários meses.
E porque é que não é para todos? Dias muito quentes, muito frios ou com chuva intensa dentro de um carro tornam-se rapidamente desconfortáveis, cansativos e frustrantes. Se não tiveres WC tens sempre de procurar alternativas, ou improvisar… Se a conversão não tiver aquecimento ou A/C, os extremos de temperatura vão pôr-te à prova, e a falta de espaço, que para uns dias é suportável, ao fim de vários meses começa a pesar.
É fácil cair na armadilha do que se vê nas redes sociais: vistas deslumbrantes, liberdade total, vida simples e sem preocupações. A realidade é que há muita logística envolvida, encontrar água, gerir energia, procurar sítio para dormir e lidar com dias de chuva fechados num espaço pequeno. Não quer dizer que não valha a pena, mas convém saberes o que te espera.
Partilhar um espaço muito reduzido com outra pessoa durante meses é um teste à relação que não deve ser subestimado. Nós passámos por isso e correu bem, mas tivemos momentos difíceis. A honestidade e a comunicação são tão importantes como qualquer equipamento.
Antes de partires, a preparação necessária depende muito da duração e do destino. Para uns dias em Portugal ou Espanha não precisas de muita coisa. Para uma viagem de vários meses noutro país, a escolha e preparação do veículo é fundamental, e tens os nossos guias da Austrália e Canadá onde detalhamos o que comprámos, como equipámos o carro e o que faríamos diferente.
Muitas vezes gabam-nos a coragem para o tipo de viagens que fazemos. Não é para todos, é verdade, mas quando pensamos em como as pessoas viajavam no passado, até mesmo há 20 anos, sem internet nem apps nem a informação atualmente disponível, isso sim era coragem!
As apps mais essenciais são para encontrar sítios para dormir, áreas de descanso, água potável e outros pontos de interesse. Permitem aplicar filtros como gratuito ou pago, e se têm WC, chuveiro, água potável ou cobertura de rede móvel. Temos recomendações diferentes por país, mas muitas funcionam em todo o mundo com mais ou menos informação disponível. Como a informação é essencialmente fornecida pelos utilizadores, pode estar errada ou desatualizada, por isso usa o bom senso. Muitas têm website disponível, e por vezes o site acaba por ser melhor por ter menos restrições.
A iOverlander é uma das maiores e mais conhecidas, e foi a que tinha mais informação para o Canadá e EUA. As funcionalidades não são intuitivas como outras apps, mas a base de utilizadores é enorme. Recentemente passou a ser paga (versão 2), mas ainda é possível fazer download de uma região de cada vez gratuitamente. É a app que mais usamos, e pode ver no nosso perfil do iOverlander todos os locais que adicionámos ou fizemos check-in.
A WikiCamps é a melhor opção para a Austrália. É pago, mas muito barato (cerca de 7€), e tem sem dúvida a melhor apresentação e filtros. Existe uma versão para cada país, mas a do Canadá tinha tão pouca informação que até foi encerrada recentemente.
A CamperMate Australia & NZ é gratuita e tem muita informação, mas não é tão intuitivo como a WikiCamps.
Na Europa usa-se muito o Park4Night, mas mesmo em Portugal a informação é escassa e o iOverlander tem ganho terreno.
O Google Maps é a nossa preferência para navegação, e recentemente tem sido excelente também para encontrar os preços dos combustíveis. Fazemos sempre download das regiões por onde vamos passar para ter mapas offline. Por segurança, usamos também o Maps.me para garantir navegação quando não há rede. Existem apps específicas por país para encontrar o combustível mais barato, mas temo-las usado cada vez menos desde que o Google Maps integrou essa funcionalidade.
Usamos o Geo Tracker para gravar os percursos que fazemos, tanto de carro como trilhos a pé.
Já dormimos em todo o tipo de lugares: parques de campismo (pagos e gratuitos), terrenos baldios, parques de estacionamento, campos de cricket e muito, muito mais. É importante manteres uma mente aberta em relação às áreas de pernoita gratuitas, pois muitas vezes são simples parques de estacionamento, e podem ser de terra batida e à beira da estrada. Se estiver vento, tenta abrigar-te ao lado de árvores ou estruturas existentes, e se for um local movimentado ou pequeno, chega cedo para garantires lugar.
Existem inúmeros locais de pernoita gratuitos, mas nada te impede de dormir onde quiseres, exceto a polícia. Se não tiveres outra opção, em muitos países podes invocar o cansaço como justificação, mas se o fizeres, chega depois do pôr-do-sol e arranca antes do nascer do sol. E independentemente do local, não deixes lixo nem estragues nada!
Algumas estações de serviço e bombas de gasolina permitem pernoitar gratuitamente, especialmente se fizeres uma compra. Na Austrália ficámos numa bomba em Kyancutta (South Australia) com acesso a WC sem nos pedirem nada, mas abastecemos o tanque de qualquer forma. Na Billabong Roadhouse, em Western Australia, jantámos o famoso Bogan Burger e pudemos acampar com acesso a duche e WC gratuitamente. Para negócios pequenos, não custa nada comprar qualquer coisa.
Se tiveres uma tenda de tejadilho, é uma excelente forma de ganhar espaço no carro e dormir mais confortavelmente. Na Austrália foi a nossa opção, já que são muito mais comuns e baratas lá do que em Portugal e noutros países, e têm a vantagem extra de te manter afastado da vida selvagem rastejante. A principal desvantagem é o vento, que se sente muito mais do que numa tenda convencional, e o terreno inclinado também se faz notar mais. Tínhamos sacos cama para 10 ºC e duas almofadas que mantínhamos dentro da tenda. No Canadá optámos por não usar uma: são caras, dão nas vistas, e havia ursos. Construímos um sofá-cama dentro da nossa Toyota Sienna, e em Portugal usamos um colchão de ar dentro da nossa Peugeot 406, e em ambos os casos tínhamos um edredão de inverno e duas almofadas. No verão simplesmente dormíamos destapados.
A qualidade do sono é muito importante, mas às vezes vais ter que lidar com as condições existentes:
- Se puderes, evita zonas mais ruidosas e tenta afastar-te o mais possível de estradas movimentadas, porque vais ouvir tudo. Se estiveres perto de uma estrada, as árvores conseguem bloquear uma boa parte do ruído. Recomendamos tampões para os ouvidos se fores sensível ao ruido.
- Tapa todas as janelas: ganhas privacidade, bloqueias a luz e ajudas a regular a temperatura.
- No verão, deixa uma ou mais janelas ligeiramente abertas para o ar circular e evitar humidade. Se o carro estiver ao sol, vai absorver o calor ao longo do dia e mesmo com noites frescas, vais sentir imenso calor a noite toda, por isso tenta estacionar à sombra.
- No inverno, ou tens uma conversão com isolamento e aquecimento, ou vais passar muito frio. Nos EUA tivemos duas semanas sempre abaixo dos -10 ºC à noite e não foi nada agradável.
- Se o terreno for inclinado, nunca durmas com inclinação lateral nem com os pés mais altos do que a cabeça. Ter a cabeça ligeiramente mais alta é mais suportável.s
Estejas onde estiveres, o sítio não é teu! Respeita quem já lá estiver, mantém distância e não faças ruído nem uses luzes desnecessárias durante a noite. Não estragues nada, não deixes lixo, e se não houver caixote, guarda num saco e descarta quando encontrares um.
Manteres-te limpo numa viagem é crucial para o teu conforto e bem-estar, mas não precisa de ser complicado nem dispendioso. Apesar de termos comprado um chuveiro solar na Austrália e construido um no Canadá, raramente os usámos já que havia quase sempre alternativas.
WC
Muitas áreas de pernoita têm casa de banho, mas nos sítios mais isolados são de compostagem. Olhar para o buraco pode ser assustador, mas desde que esteja limpa nunca tivemos grandes preocupações. Recomendamos vivamente teres sempre toalhetes desinfetantes descartáveis (mas não os deites na sanita). Na Austrália, levanta sempre a tampa antes de te sentares, podem haver aranhas ou cobras escondidas. Nunca tivemos esse problema, mas nalgumas havia imensas teias e aranhas nas paredes, e às vezes acabávamos por fazer o que tínhamos a fazer na rua.
Em último caso, podes sempre parar na beira da estrada. Fácil para os homens, mas nada impede as senhoras de o fazerem também. Para o número 2, compra uma pá pequena, fazes o que tens a fazer e tapas. Compramos uma por precaução na Austrália mas nunca precisámos dela. No Canadá nem nos demos ao trabalho.
Existem sanitas portáteis, mas são caras, grandes e precisam de ser esvaziadas e limpas regularmente. Nunca foi uma opção para nós, mas numa conversão maior pode fazer sentido. Há quem use um balde e sacos de plástico.
Duche
Salvo raras exceções, nunca tivemos grandes dificuldades em encontrar onde tomar duche durante todas as nossas viagen. Muitas praias têm duches gratuitos, e apesar da água não ser quente, no verão não é um problema. Se usares os duches nas praias, atenção ao champô e sabão: usa sempre produtos biodegradáveis se a água escorrer para o areal.
Muitas bombas de gasolina têm duches para camionistas, mas normalmente permitem que qualquer viajante os use, mas por norma são caros. Parques de campismo pagos têm quase sempre duches, e muitos permitem que uses as instalações mesmo sem pernoitar. Alguns locais de pernoita gratuitos, como campos de críquete, disponibilizam balneários em troca de uma doação. Um dos melhores que visitámos foi o campo de críquete em Timboon, Victoria: era espaçoso, limpo e gratuito. Em Albany, na Austrália Ocidental, há também um balneário público gratuito que foi sem dúvida dos melhores que já usámos.
Algumas roadhouses permitem pernoitar e usar o duche se gastares algum dinheiro com eles, seja em combustível ou numa refeição.
Podes comprar um duche portátil que aquece ao sol. Compramos um na Austrália que usámos só uma vez. No Canadá/EUA construímos um duche no topo do carro com o mesmo princípio, mas também mal o usámos. Em Portugal temos um duche com bomba que já nos desenrascou algumas vezes.
Em último recurso, os toalhetes de bebé fazem milagres. Não é um duche, mas a viver na estrada não podemos ser muito esquisitos. Às vezes nadar num lago ou rio, mesmo sem sabão, era suficiente para uma limpeza rápida. Mudar de roupa todos os dias ajuda imenso a sentires-te limpo e fresco.
Lavandaria
Roupa lavada é uma parte importante de te manteres limpo e confortável. Mesmo vilas pequenas costumam ter lavandarias self-service, mas os preços variam imenso consoante a localização. É cada vez mais comum aceitarem cartão bancário, mas muitas ainda funcionam com moedas ou fichas, e por isso é importante teres sempre dinheiro local e não dependeres só do cartão. Costuma haver uma máquina ou alguém que troca notas. Se só venderem fichas, faz as contas antes de comprar, porque não vão funcionar noutros sítios.
Muitas disponibilizam sabão e amaciador (pagos), mas nós nunca usámos. Tanto na Austrália como no Canadá sobrou sempre do tempo em que vivemos em Melbourne e Toronto antes das viagens.
Em Portugal nunca nos preocupámos com isto, já que são apenas alguns dias de cada vez. Nas viagens longas lavávamos quando calhava, normalmente quando a roupa suja começava a ocupar demasiado espaço, e aproveitávamos sempre para lavar também os lençóis e fronhas.
Evita levar roupa delicada ou importante. Nalgumas máquinas escolher a temperatura e o ciclo pode não ser intuitivo, e a manutenção nem sempre é a melhor. Se tiveres roupa que aguenta temperaturas mais altas, melhor, a menos que queiras passar muito tempo à espera que a seque. Não deixes a tua roupa sozinha, não só por questões de segurança, mas também por respeito a quem quer usar a seguir. Verifica sempre o filtro da máquina de secar antes de a usar, e não te esqueças de o limpar no final do ciclo.
Nós já usámos imensas lavandarias e nunca tivemos grandes problemas. Algumas tinham várias máquinas avariadas, o que pode obrigar a esperar mais tempo. Numa situação uma máquina de secar não funcionava, mas devolveram-nos o dinheiro sem problemas e utilizamos outra.
Água
A forma mais simples de ter água potável é comprar garrafões no supermercado. É mais caro e gera desperdício de plástico, mas é a opção mais segura se não quiseres arriscar em fontes desconhecidas. Muita gente já o faz em casa, por isso na estrada não seria muito diferente.
Nós preferimos usar jerricans ou garrafões reutilizáveis e encher em fontes. Não faltam opções: bombas de combustível, fontes públicas, jardins ou áreas de descanso. A melhor forma de as encontrar é através de apps ou simplesmente à vista. Existem também locais próprios para encher água a baixo custo, uma opção viável quando não há mais nada disponível. Quando encheres numa fonte, verifica sempre se há avisos, consulta a app, ou o website do município.
Usa sempre jerricans certificados para água potável, os que não são próprios podem transferir químicos prejudiciais. Evita comprar maior do que 10 a 15 litros porque cheios ficam muito pesados, e não te esqueças que um litro de água pesa um quilo. Cometemos esse erro na Austrália com um jerrican de 25 litros, que acabámos por devolver e trocar por dois de 10. Se não vier incluída, compra uma torneira de plástico, que facilita muito o uso. No Canadá os jerricans eram mais caros, por isso comprámos três garrafões de 4 litros e trocávamos por novos a cada dois meses. Barato e o desperdício de plástico é negligenciável comparado com comprar garrafões continuamente.
Se tiveres uma caravana com tanque de água integrado, não precisas de te preocupar tanto com a potabilidade para duches e lavar a louça, basta garantir que a fonte é segura.
Podes comprar um purificador de água, mas raramente é necessário. Os locais indicam quando a água não é segura, e em anos de seca mais intensa pode simplesmente não haver água disponível em zonas mais remotas. Para beber, cozinhar e higiene básica, 30 litros foram sempre mais do que suficientes para nós. O máximo que ficámos sem acesso a água foram três dias na Austrália, mas podes sempre ter jerricans extra ou comprar mais garrafões por segurança. No Canadá, além dos três garrafões para beber e cozinhar, tínhamos um de 15 litros no lavatório para lavar a louça e higiene pessoal. Para lavar a louça, pouca água chega, um fio para ensaboar e outro para passar. Usa sempre detergente biodegradável se não tiveres onde despejar a água adequadamente.
Se tiveres uma caravana tens de despejar o tanque de água suja em locais apropriados. Alguns cobram, mas não faltam opções gratuitas. No Canadá tínhamos também um garrafão de 15 litros vazio para o escoamento do lavatório, que esvaziávamos nesses locais. Como esta água não é diferente da de um lavatório normal, tínhamos a vantagem de a poder descartar num WC público ou similar.
Alimentação
Podes sempre recorrer a take-away e restaurantes, mas isso sai muito caro a longo prazo. Com equipamento básico de cozinha e um fogão a gás já consegues fazer quase tudo. Numa caravana é fácil ter duas bocas ou mais, mas num carro ou conversão mais pequena, um fogão portátil com botija ou latas de gás é o ideal.
Nós optámos sempre por fogão de uma boca: na Austrália foi-nos dado, no Canadá e em Portugal foi a opção mais barata e é suficiente para nós. Se não quiseres cozinhar o prato e a guarnição em separado, recomendamos duas bocas. Na Austrália nunca foi problema porque há imensos barbecues elétricos gratuitos nas áreas de descanso. No Canadá não nos sentimos condicionados: cozinhávamos o acompanhamento primeiro, que se mantém quente no tacho, e depois fazíamos a carne ou peixe.
Quanto ao combustível, podes usar latas/cartuchos de gás ou botija. As latas são mais pequenas e leves, mas tens de fazer stock. Para a botija precisas de encontrar locais onde a encher ou trocar. Nós optámos sempre pelas latas pela facilidade, mas deves considerar bem esta decisão: a Califórnia, por exemplo, vai banir cartuchos de gás descartáveis a partir de 2028. Numa conversão maior a melhor opção é um fogão de indução com uma ou duas bocas, mas vais precisar de um bom sistema elétrico.
Para a comida, não precisas de nada complicado. Nós gostamos de iogurte com fruta ao pequeno-almoço, e como queríamos ter frescos, carne, peixe e água fria, comprámos um frigorífico de 45 litros na Austrália, que a melhor decisão de sempre! No Canadá fizemos o mesmo com um de 53 litros com compartimento de arca, mas nunca o usámos para congelados porque roubava espaço ao frigorífico. Em Portugal dispensámos o frigorífico, mas por falta de espaço.
Não comprávamos nada complicado: hambúrgueres, bifes de vaca ou frango ou postas de salmão. A carne fresca só se aguenta alguns dias mesmo no frigorífico, por isso íamos comprando aos poucos. Arroz com atum nunca falha, e tínhamos sempre latas de feijão, lentilhas e salmão. Não tenhas medo de comprar enlatados e comida seca como arroz e massa em quantidade, em zonas mais remotas nunca sabes quando voltas a encontrar um supermercado, e estes produtos aguentam muito tempo. Noodles são também uma boa solução: rápidos, simples e baratos. Uma dica: ferve os noodles, escorre a água, e só depois mistura o tempero. Agradece-nos depois.
Panelas e frigideiras dobráveis de campismo são ótimas porque ocupam pouco espaço, mas como tínhamos vários utensílios de quando vivemos em Melbourne e Toronto, foi o que usámos. O que comprámos foram canecas, pratos e taças de plástico. Preferíamos cerâmica, mas é mais pesada e parte quando cai, o que já nos aconteceu. Para talheres preferimos sempre metal. Em Portugal guardamos talheres descartáveis que nos vão dando e praticamente não usamos louça, mas costumamos levar um tupperware com rissóis ou algo semelhante que nos safam nos primeiros dois dias. Uma coisa que só descobrimos no Canadá foi um aparelho que coze seis ovos de uma vez. É barato, pequeno, e depois de cozidos e arrefecidos podíamos guardá-los no frigorífico. O único senão é que precisa de corrente alterna, por isso ou tens uma bateria com inversor de pelo menos 300W, ou tens de o usar em zonas com eletricidade disponível. Já o chegamos a fazer numa biblioteca (com autorização, claro)…
Este estilo de viagem não tem de significar abdicar de todo o conforto. A eletricidade é muito útil na estrada, mas o sistema certo depende das tuas necessidades. Se só tens alguns dispositivos para carregar e preferes fazê-lo com o motor em funcionamento, um carregador USB ligado ao isqueiro é suficiente e económico, e podes complementar com um powerbank para carregar à noite. Se tens vários dispositivos e precisas de energia com o motor desligado, vais precisar de uma segunda bateria, e possivelmente de um painel solar e um inversor. Podes optar por não comprar uma e carregar os teus dispositivo em bibliotecas, restaurantes e postos de combustível, mas tens ficar à espera que que carreguem. Ter uma segunda bateria dá-te muito mais flexibilidade.
Durante as nossas viagens sempre tivemos vários dispositivos para carregar: telemóveis, câmara, GoPro, baterias e controlador de drone, lanterna, portátil e frigorífico. Usávamos um carregador USB no isqueiro para os telemóveis, e uma segunda bateria para o frigorífico e restantes dispositivos com o motor desligado. Esta segunda bateria estava ligada à bateria principal e carregava enquanto conduzíamos, complementada por um painel solar e um inversor para corrente alternada.
Segunda Bateria
Se precisas de energia com o motor desligado, uma segunda bateria é essencial. Usar a bateria principal vai descarrega-la rapidamente e é muito provável que depois o carro não pegue.
Na Austrália comprámos uma bateria AGM de 98Ah para campismo, e também comprámos uma caixa com ligações Anderson, saídas USB, tomada de isqueiro para o frigorífico e indicador de nível. No Canadá optámos por uma LiFePO4 de 100Ah com BMS integrado, sem caixa, mas com ligações acessíveis na traseira do armário, disjuntor, fusíveis e controlador de painel solar com portas USB. Em Portugal usamos uma LiFePO4 de 7Ah numa caixa com eletrónica de controlo e portas USB, que construímos de raiz.
Ao escolher uma bateria, considera a química e a capacidade. Evita baterias de chumbo para campismo porque não lidam bem com descargas prolongadas. AGM está preparado para este tipo de descarga (deep cycle), mas são bem mais pesadas do que as de lítio. A capacidade depende dos dispositivos que precisas de alimentar com o motor desligado, por isso faz as contas com o consumo de cada um. Hoje em dia são cada vez mais comuns as power stations, baterias de lítio com ecrã, portas USB, ligação para painel solar e inversor integrado. São mais caras, mas a comodidade tem um preço.
Painel Solar
Um painel solar é uma boa forma de manter a segunda bateria carregada. Na Austrália optámos por um painel dobrável porqu tinhamos a tenda no tejadilho. Tinha uma potência máxima de 160W, e era compacto, fácil de guardar, e encaixava no para-brisas de maneira a proteger o interior do sol enquanto carregava a bateria. No Canadá, com o tejadilho livre, instalámos um painel rígido de 100W no topo do carro. Vais precisar de um controlador, que pode ou não vir incluído.
Por segurança, deves ligar sempre a bateria primeiro e só depois o painel. Como painel era removível, isto não era um problema na Austrália, mas no Canadá tínhamos um interruptor de segurança para desligar o painel caso precisássemos de desligar a bateria.
Os dois tipos de controladores mais comuns são PWM e MPPT. Os PWM são mais baratos mas menos eficientes. Num painel de 20V a carregar uma bateria de 12V, desperdiçam a tensão extra, o que pode representar cerca de 20% da energia produzida. Os MPPT são mais caros mas convertem essa diferença de tensão em corrente adicional, e aproveitam a potência máxima do painel. Por uma questão de custo, e porque o painel solar não era a nossa única fonte de energia, optámos por PWM no Canadá. Na Austrália, o controlador (que era PWM) estava integrado no painel.
Alimentação pelo alternador
Os painéis solar são ótimos, mas dias nublados, o inverno e as latitudes mais altas reduzem significativamente a produção. A solução mais simples é ligar ao alternador do carro, mas há três pontos críticos a considerar: isolamento da bateria principal, controlo da carga e alternadores inteligentes.
O isolamento é obrigatório, porque sem ele vais descarregar as duas baterias com o motor desligado e o carro não vai arrancar. A forma mais comum é usar um relé para isolar as duas baterias quando a ignição está desligada. Os relés mecânicos têm quatro pinos: dois para a bobina, ativada pela ignição, e dois para o interruptor, ativado pela bobina. Os relés solid state têm apenas dois pinos, um para cada bateria, e são ativados quando a tensão do lado do carro ultrapassa um valor pré-definido, que só acontece com o motor ligado. Os solid state são mais simples de instalar, mas são mais caros e menos eficientes.
O controlo da carga é recomendável par garantires a longevidade das baterias. Baterias de chumbo e AGM não limitam a corrente de entrada, e se estiverem com o nível baixo podem “puxar” muita corrente, o que pode danificar o alternador e derreter cabos, o que pode provocar um incêndio. As baterias de lítio têm um BMS, um sistema eletrónico que protegem as células, mas precisam de tensões mais altas (14.5 V) para carregar até aos 100%, e com o comprimento dos cabos essa tensão pode não chegar aos terminais. Por isso, considera um DC-DC Charger, que carrega a bateria com a tensão e corrente certas para a sua química. Nós nunca tivemos um por questões de custo, e porque nunca mantivemos os carros após as viagens, mas numa conversão futura em Portugal vamos ter.
Carros mais modernos têm alternadores inteligentes, que só fornecem corrente quando existe uma carga alta, como luzes ligadas. Se tiveres um DC-DC Charger, este vai obrigar o alternador a produzir energia, mas se não quiseres instalar um e tiveres um alternador inteligente, este não vai carregar a bateria, a menos que andes sempre com as luzes ligadas.
Inversor
Um inversor só é necessário se tiveres aparelhos que precisem de corrente alternada. No nosso caso, na Austrália precisávamos de corrente alterna para carregar o portátil e o drone, e no Canadá para o portátil e o cozedor de ovos.
Ao escolher um inversor, considera dois fatores: potência máxima e tipo de onda. Para a potência, soma o consumo de todos os aparelhos que podes ter ligados em simultâneo. O nosso portátil na Austrália consumia 60W e o carregador do drone 75W, um total de 135W, pelo que um inversor de 150W seria suficiente. Optámos por um de 200W porque o preço era praticamente igual. Atenção que os inversores costumam indicar duas potências: o nosso era 200/400W, o que significa que a potência máxima é de 200W, mas aguenta picos de 400W para aparelhos que exigem mais corrente no arranque.
A questão da onda completa raramente é relevante para uso comum, mas se a diferença de preço for pequena, opta por um.
Ligações elétricas
Liga o terminal negativo da segunda bateria à chapa do carro para ter massa comum em ambos os sistemas. O cabo positivo deve passar por um corta-corrente, de preferência com disjuntor, e depois por uma caixa de fusíveis. Estes componentes são baratos e evitam queimar componentes ou, em casos extremos, provocar um incêndio. Da caixa de fusíveis fazes as derivações para frigorífico, bomba de água, sistema de carga, e o que mais precisares.
Iluminação
Muitos optam por fitas LED ou luzes a pilhas. Nós nunca o fizemos por falta de tempo e usámos sempre lanternas LED com intensidade variável e baterias recarregáveis. Hoje em dia há imensas opções a bons preços.
A organização do carro é crucial para o teu conforto e experiência geral, e vale a pena pensares bem nisso antes de partir, porque reorganizar tudo no meio da viagem é muito mais difícil. A regra base é simples: o que usas todos os dias fica facilmente acessível, e o que usas raramente vai para o fundo.
O nosso X-Trail era mais pequeno do que a Sienna, mas a tenda de tejadilho libertou imenso espaço interior. O banco traseiro do lado do condutor tinha o encosto rebatido para acomodar o frigorífico, mas mantivemos o do lado do passageiro livre para possíveis passageiros. Empilhámos as duas mochilas (55 e 40 litros) nele para guardar toda a roupa, organizadas com packing cubes. A bateria ficou no meio da mala, perto do encosto do banco, e o restante espaço foi usado para caixas, tanques de água, cadeiras e mesa. No chão dos bancos traseiros ficavam os sapatos de um lado e o fogão com as garrafas de gás do outro. Para a comida seca, especiarias, talheres e outros essenciais, usámos caixas de plástico com tampa.
Na Sienna tivemos de planear com mais cuidado porque íamos dormir dentro do carro. As mochilas com a roupa usada com menos frequência ficavam em cima do sofá, e quando queríamos sentar ou abrir a cama, passavam para o banco da frente. As almofadas e o edredão (dobrado) ficavam no sofá traseiro durante o dia. A roupa do dia-a-dia ficava no armário que construímos. Tínhamos um lavatório com despensa para enlatados e especiarias, e debaixo do sofá-cama caixas com embalagens maiores como arroz, massa e outros alimentos, além de artigos de limpeza e higiene. Na mala, debaixo da tampa da cama, ficavam as ferramentas e acessórios, e como tínhamos forma de bloquear esse acesso, era também aí que guardávamos o material fotográfico. A bateria estava igualmente na mala.
Em Portugal, na nossa Peugeot 406, a abordagem é bem mais simples. Retiramos os assentos e rebatemos as costas dos bancos traseiros, o que nos dá um espaço plano para o colchão de ar. Levamos duas mochilas com roupa que ficam em cima do colchão durante o dia e passam para a frente à noite. Por norma comemos fora, em restaurantes ou take-away, e por isso não precisamos de muito equipamento, só um fogão a gás, uma cafeteira e uma pequena bateria no chão dos bancos traseiros.
Manter o carro limpo
É uma tarefa bem mais difícil do que manteres a tua própria higiene. Vais passar por estradas com pó tão fino que se entranha por todo o lado, e o entrar e sair traz sempre sujidade e areia.
Com a tenda de tejadilho, o carro suja-se à mesma, e não há muito a fazer além de teres cuidado com o calçado sujo e aspirar de vez em quando. Na tenda, deixávamos o calçado no carro e calçávamos chinelos que ficavam junto à escada. Se os roubassem não levavam nada de jeito, e sendo abertos não havia o risco de aranhas ou cobras se alojarem durante a noite.
Numa caravana, o tamanho e a altura facilitam ter um tapete à entrada. Numa minivan como a nossa, é muito fácil sujar o interior. Um ponto importante da nossa conversão foi revestir o chão com tapetes de borracha na zona de passagem, muito mais fácil de varrer e aspirar do que a alcatifa original. Uma pequena pá e vassoura são muito úteis. Deixávamos também o calçado no chão da frente, que já estava sujo de termos os pés lá durante o dia, e usávamos chinelos para entras na traseira antes de ir domir. No Canadá e EUA nem sempre havia clima para chinelos, mas aguentávamos uns minutos para manter o chão menos sujo.
De vez em quando, especialmente depois de zonas mais desertas ou estradas de terra, tirávamos o máximo possível do carro e dávamos uma boa aspiradela. Lavar o exterior não era complicado: uma lavagem manual por alguns dólares resolvia. No inverno usávamos por vezes lavagens automáticas com opção de lavagem inferior para limpar o sal debaixo do carro e evitar ferrugem.
Mais vale teres algumas ferramentas básicas do que precisares delas e não as teres. Recomendamos um conjunto básico que inclua alicates, chaves de fendas, chaves inglesas e roquetes, úteis para reparações inesperadas. Um multímetro é excelente para verificar a saúde das baterias e diagnosticar problemas elétricos, e é essencial se quiseres montar a tua própria bateria secundária.
Um compressor de ar é essencial para qualquer viagem de carro, independentemente de planeares fazer off-road ou não. É útil para encher os pneus ou em caso de furo, permitindo-te chegar a um local onde o possas reparar. Evita os modelos mais baratos porque podem não ser fiáveis numa emergência. Se planeias conduzir em terrenos acidentados ou areia, vais ter de encher e esvaziar os pneus com frequência, e nesse caso recomendamos um compressor com um fluxo de pelo menos 80 litros por minuto. Acredita, vais agradecer a velocidade extra ao encheres os pneus sob um sol escaldante a mais de 40 ºC. No Canadá optámos por um modelo mais básico, já que as temperaturas eram mais moderadas e fizemos menos off-road. No estrangeiro é comum pagar para encher os pneus nas bombas de gasolina, e começa a acontecer em Portugal também, por isso é sempre um investimento útil.
Além do compressor, há outros itens de segurança que recomendamos. Um extintor de incêndio é obrigatório em alguns países e faz todo o sentido ter. Um kit básico de primeiros socorros deve incluir pensos, toalhetes antissépticos, analgésicos e qualquer medicamento de prescrição necessário. Um kit de emergência rodoviária deve ter cabos de arranque, kit de reparação de pneus, lanterna e triângulo refletor. É também boa ideia ter óleo e líquido de refrigeração extra para imprevistos.
Na Austrália tínhamos ainda um jerricã, que foi útil na Nullarbor devido aos preços elevados do combustível nessa zona. Só o usámos uma vez, e porque a gasolina na zona era cara, mas é sempre bom ter reserva. Mantém-no à sombra e evita tê-lo dentro do carro se for gasolina. No Canadá não comprámos um por não achar que valesse a pena.
Nunca sentimos grande insegurança durante as nossas viagens, mas temos algumas dicas para te deixar mais descansado e prevenir problemas.
If it doesn’t feel right, leave.
Safety was my #1 worry too, but you’ll feel so much better once you’re out there. Our wireless camera setup is a lifesaver for seeing what’s going on around the rig without even getting out of bed. Just remember to always trust your gut if you pull in and feel weird, just leave, no questions asked!
Segurança pessoal e do veículo
Pode parecer óbvio, mas não te esqueças de trancar o carro, não só quando te afastas, mas também quando estás a dormir, seja dentro dele ou numa tenda, e mantém as chaves por perto. Evita ter material de valor à vista e tenta estacionar perto de outros carros, em zonas movimentadas ou perto de esquadras de polícia. Para evitar roubo do carro, podes comprar um cadeado para o volante, instalar um corta-corrente ou um GPS tracker. Nós instalámos um corta-corrente com comando que controlava a ignição e as portas.
Para escolher onde dormir, usamos os locais das apps e lemos as reviews. Quando chegamos a um sítio novo, avaliamos o aspeto da zona e as pessoas que circulam. Nunca tivemos problemas, mas já chegámos a sítios em que não gostámos da vibe e fomos para outro. As reviews são muito importantes — já vimos sítios aparentemente seguros, como um estacionamento de um casino em Ontário, com muitas queixas de roubos de bicicletas nas traseiras dos veículos. Não tínhamos bicicletas, mas para quê arriscar?
Se tiveres algum aparelho dentro do carro que emita sinais (como Bluetooth ou wifi), convém que os desligues, ou pelo menos desliga o sinal. Há ladrões que usam detetores, mas qualquer telemóvel é capaz de os detetar.
Condução e vida selvagem
Evita altercações na estrada. Se alguém se meter contigo, ignora, muda de rota e se necessário liga à polícia. Em países onde as armas são comuns, como nos EUA, uma situação destas pode escalar rapidamente.
Evita conduzir à noite e durante o pôr ou nascer do sol, que é quando mais animais andam pela estrada. Na Austrália os cangurus são particularmente perigosos: além do tamanho, como saltam, podes atropelá-los com o para-brisas, o que a alta velocidade pode ser fatal. No Canadá e EUA é relativamente comum atropelar um alce, com consequências igualmente graves.
A vida selvagem varia muito com o país e falaremos com mais detalhe nos guias dos países, como Austrália, Canadá e EUA. Nunca ignores sinais e avisos, estão lá por uma razão. Não alimentes animais selvagens, é perigoso para eles e para ti, e evita deixar comida no exterior quando pernoitares.
Alguns trilhos têm livros de registo e deves sempre fazê-lo para caso te aconteça alguma coisa, as autoridades saberem que podes estar naquela zona.
Condições meteorológicas extremas
Mantém-te informado sobre as condições meteorológicas onde estás e para onde vais. Portugal, Califórnia, Austrália e a BC (Canadá) são zonas muito afetadas por incêndios e ondas de calor. Segue a previsão meteorológica, os avisos das autoridades locais e verifica sempre as condições das estradas. Nós passámos por situações assustadoras na Austrália durante o verão negro de 2019/20, e o que fizemos foi afastarmo-nos o máximo possível e seguir as indicações locais, no rádio e na internet. Para piorar, foi quando nos apercebemos que o radiador do carro estava entupido, por isso fizemos 800 km com as janelas abertas e a ventilação no quente…
Com calor extremo, tenta manter o carro à sombra quando está parado e deixa uma fresta nas janelas para ventilação. Já passámos por temperaturas de 52 ºC na Austrália e não há muito a fazer senão evitar essas zonas ou deslocar-te para outra área. Passar o dia perto de água ajuda, mas não descures protetor solar e chapéu.
O frio pode ser igualmente perigoso. O ideal é teres um veículo com isolamento e climatização, mas no mínimo isola as janelas quando estiveres a dormir. Passámos duas semanas com noites sempre abaixo dos -10 ºC (com um pico de -15) nos EUA e não foi nada agradável. Liga o aquecimento antes de dormires, mas não o deixes ligado durante a noite. Agasalha-te bem; um bom saco-cama é mais quente do que um edredão. Verifica sempre a previsão de neve: ficar coberto fica bem nas fotos, mas pode dificultar imenso sair de manhã. Se puderes, posiciona o carro a evitar sombras matinais para uma manhã mais agradável.
Com tempestades não há muito a fazer senão evitá-las. Na Austrália apanhámos uma que nos obrigou a fechar a tenda de tejadilho e dormir sentados no carro. No Canadá outra semelhante fez-nos conduzir até um hotel e dormir no parque de estacionamento, ligeiramente mais abrigados do que no meio da pradaria. Cuidado a dormir perto de árvores, estruturas instáveis ou zonas de derrocada com vento e chuva forte.
Zonas remotas
Estar longe de hospitais e apoio é uma realidade em muitas das viagens que fazemos. Fora da UE deves ter seguro de saúde e viagem para cobrir emergências e resgates, mas mesmo dentro da UE faz sentido se viajares em zonas mais remotas. Mesmo sem rede da tua operadora, podes ter rede de uma concorrente e podes sempre ligar para números de emergência. Garante que tens kit de primeiros socorros, lanterna, água e comida, pneu sobresselente, combustível, óleo e anticongelante extra.
Documentação
Tem sempre cópias físicas e digitais de todos os documentos importantes, pessoais e do veículo. No Canadá tínhamos sempre o visto connosco, e nos EUA uma cópia do ESTA, além de cópias dos documentos do carro, seguro e passaporte. Leva sempre dinheiro local para além do cartão. Usamos o Revolut ou o Wise fora da zona Euro, mas levamos sempre um cartão português como backup. As taxas são altas fora da zona de origem, mas se perderes o Revolut não ficas sem forma de pagar.
Hoje em dia estar online e contactável é essencial, e não estamos a falar apenas de redes sociais. A cobertura varia muito de país para país e de operadora para operadora, mas em alguns países uma operadora é inegavelmente superior a todas as outras. Um bom exemplo é a Telstra na Austrália — se não tiveres sinal com eles, não vais ter com mais ninguém. O problema é que estas operadoras tendem a ser mais caras, mas muitas têm marcas low-cost com a mesma cobertura a preço mais baixo, como a Boost no caso da Telstra.
Atenção a empresas que usam a mesma rede mas não são donas das antenas. O sinal não é prioritário em cidades e podem não ter acesso a todas as torres em zonas remotas. Um bom exemplo é a Aldi Mobile na Austrália, que usa as torres da Telstra mas não tem acesso a todas. Na Nullarbor passámos mais de três dias sem qualquer sinal, o que não teria acontecido com a Boost. Seja qual for o país, as operadoras disponibilizam mapas de cobertura, e vale a pena consultá-los antes de escolher.
Podes comprar um cartão SIM local ou adquirir um eSIM como o Airalo ou o Holafly. Nós nunca precisámos porque na UE o roaming é gratuito (com algumas limitações), e nos países onde fizemos grandes viagens já tínhamos SIM local de quando lá vivemos. O nosso cartão canadiano incluía roaming gratuito para os EUA.
Raramente precisámos de wifi porque sempre tivemos dados suficientes, mas se precisares, bibliotecas, restaurantes de fast-food e campings são boas opções. Recomendamos o uso de uma VPN em redes públicas por segurança. Nós usámos sempre o NordVPN, mas recentemente mudámos para o Mullvad e Tailscale através do nosso servidor. Se precisares de conectividade em zonas muito remotas, podes sempre aderir a um serviço como o Starlink, embora seja caro.
Prepara-te para períodos sem rede. Avisa amigos e familiares por onde vais andar, e faz download de apps e mapas para acesso offline. Se a conectividade for uma prioridade, podes comprar um booster de sinal 4G; são caros, mas muito úteis e comuns na América do Norte.
A rotina diária numa road trip longa acaba por ganhar uma estrutura natural, mesmo sem a planeares. A nossa era simples: acordar, procurar um WC ou improvisar, tomar o pequeno-almoço e seguir em frente. O que vinha a seguir dependia do sítio onde estávamos e do que tínhamos planeado, de forma sempre flexível.
Numa grande cidade estacionávamos o carro numa zona segura, de preferência num parque subterrâneo, e passávamos o dia a explorar a pé, com refeições em restaurantes locais ou take-away. Em parques nacionais, estaduais ou provinciais o dia era passado em trilhos e pontos de interesse, e levávamos quase sempre algo para comer. Numa zona de praia boa, facilmente passávamos o dia inteiro nela, e como o carro estava próximo, cozinhávamos. Fotograficamente, o plano podia implicar chegar a uma localização a uma hora específica: nascer do sol, pôr do sol, ou uma noite de astrofotografia — varia muito.
Nas grandes viagens despedimo-nos do trabalho para viajar a tempo inteiro, mas nas road trips por Portugal e Espanha são dias de férias.
Zonas menos interessantes não nos prendiam: se não havia razão para ficar, seguíamos em frente. Se fosse tarde e precisássemos de dormir, parávamos só para isso. Nos dias de chuva em cidades aproveitávamos para visitar algo coberto (como museus e mercados), ir às compras ou trabalhar numa biblioteca. Aproveitávamos sempre os tempos mortos, numa viagem longa, numa espera, ao final do dia, para pesquisar o que havia nos próximos dois ou três dias: pontos de interesse, sítios para dormir, onde tomar banho e reabastecer água.
O tempo que ficávamos em cada sítio dependia do que havia para ver, do tempo que precisávamos e das fotografias possíveis de fazer.
O entretenimento é algo pessoal, mas quando se viaja todos os dias é natural querer alguma forma de distração. Nós víamos séries e filmes no portátil, jogávamos às cartas e inevitavelmente passávamos algum tempo no telemóvel.
Um portátil é quase indispensável para entretenimento. Se o teu carro não tiver Bluetooth nem entrada USB ou jack 3.5mm, um transmissor FM é uma forma simples e barata de ouvires música pelo rádio, especialmente na Austrália, onde em muitas zonas não há sequer rádio disponível.
O impacto mental de viver na estrada durante meses é algo que poucas pessoas abordam com honestidade. As nossas road trips por Portugal e Espanha são no geral fáceis por serem dias de férias, e os desafios do carro pequeno ou do mau tempo são temporários e fáceis de gerir. O que descrevemos aqui é sobretudo a experiência das viagens mais longas.
Liberdade e exaustão
Vários meses na estrada é muito tempo. É uma liberdade fantástica e uma experiência única, mas há momentos em que o cansaço acumulado pesa. Não chegámos a querer desistir, mas houve várias alturas em que sentimos que a duração era longa. Monetariamente também não faz sentido fazer um mês, voltar a casa e recomeçar, ainda mais quando estávamos a viver no país de destino. A Austrália foi a experiência mais intensa nesse sentido: durou menos tempo que o Canadá e EUA, mas como foi a primeira vez, custou mais e o impacto mental foi maior por ser uma novidade.
Dias maus e relação a dois
Os dias difíceis existiram. Ficávamos desanimados, havia mais discussão e a paciência era menor. Não era apenas causa do clima ou de um dia mau em particular, mas sim o acumular de meses num espaço pequeno, longe de casa, sem rotina. Já tocámos nisto na secção de expectativas vs realidade, mas vale a pena reforçar: viver a dois num espaço reduzido durante meses é um teste real à relação. E isto tudo é ainda pior num espaço pequeno como foi na Austrália, Canadá e EUA, porque numa caravana ou van convertida acaba por ser muito mais suportável.
Dito isto, viajar acompanhado tem muito mais vantagens do que desvantagens. Além dos custos partilhados, a companhia faz toda a diferença: os bons momentos são melhores a dois e os maus são mais fáceis de aguentar. Ao longo das nossas viagens conhecemos muitos casais, mas também irmãos, amigos, e pessoas que se conheceram e decidiram viajar juntas, este último mais comum na Austrália. Não é obrigatório viajar acompanhado, mas se tiveres oportunidade, vale muito a pena.
Saudades, isolamento e o regresso
As saudades de família e amigos existiram, para nós mais na Austrália do que no Canadá e EUA. Antes destas viagens já tínhamos emigrado quatro anos no Reino Unido, por isso já estávamos habituados a passar meses sem ver a família. A internet ajuda imenso, e a comunicação era quase diária. Não foi o fim do mundo, mas seria desonesto dizer que não pesou.
Curiosamente, a maior dificuldade não foi voltar, mas sim perder a liberdade. Nos dias mais difíceis na estrada, com frio, chuva ou calor extremo, só apetecia voltar para casa. Mas depois de voltar, tínhamos saudades da liberdade de estar na estrada. É uma contradição real que qualquer pessoa que faça este tipo de viagem vai sentir.
Como nos mudou
Antes da Austrália nunca imaginámos fazer isto. Já tínhamos viajado muito, sempre em hotel, simples e barato, mas hotel. Estas viagens tornaram-nos fãs deste estilo de vida. Se tivéssemos dinheiro, compraríamos uma boa carrinha bem equipada e púnhamo-nos à estrada indefinidamente, e só voltávamos a casa quando nos apetecesse. Não é só uma questão de poupar dinheiro, genuinamente gostamos da flexibilidade de dormir onde queremos, quando queremos. A poupança para nós é mais na escolha da viatura do que no estilo de viagem por si. As caminhadas eram algo que raramente fazíamos e que agora adoramos.
Os maiores desafios que enfrentámos, em retrospetiva, foram monetários e burocráticos. Mais dinheiro permitiria uma carrinha maior com uma conversão mais confortável. Fora da UE há limites de tempo de estadia que por vezes obrigam a avançar na viagem antes de estarmos prontos. Se pudéssemos mudar alguma coisa, seria isso, e não a experiência em si.
Portugal e Espanha não devem ser uma grande incógnita para ti, tal como não são para nós. Noutros continentes as diferenças saltam à vista e é fácil falar sobre elas. Portugal e Espanha não são iguais, mas são muito semelhantes, e sendo ambos membros da UE têm muitas leis em comum.
A nossa experiência aqui não é de viver num veículo, mas já fizemos muitas road trips onde dormimos nele. Para um português, as distâncias podem parecer grandes, mas para nós, com toda a experiência acumulada, nunca nos sentimos verdadeiramente isolados.
Legalidade
Em Portugal, dormir dentro de um carro de passageiros convencional é legal, desde que esteja corretamente estacionado. Vans convertidas sem homologação IMT seguem o mesmo regime. Autocaravanas homologadas pelo IMT têm regras específicas: podem pernoitar até 48 horas no mesmo município, mas estão expressamente proibidas em áreas da Rede Natura 2000, áreas protegidas e zonas costeiras (POOC). Para carros normais e vans não homologadas, a lei nacional não contém essa proibição geográfica, no entanto cada área protegida pode ter regulamento próprio que restrinja ou proíba a permanência noturna de veículos, independentemente de haver campismo ou não. Antes de pernoitar numa dessas zonas, deves verificar o regulamento específico da área em questão. Em qualquer dos casos, a linha que separa pernoita de campismo, ilegal na via pública e em áreas protegidas, é não colocar nada fora do veículo: sem cadeiras, mesa, toldo ou fogueira. As zonas com fiscalização mais ativa são a Costa Vicentina e o Gerês.
Em Espanha a situação é mais clara e mais favorável. A DGT permite dormir em qualquer veículo desde que esteja corretamente estacionado e não sejam instalados elementos no exterior, sem toldos, mesas, patas estabilizadoras ou qualquer coisa que ultrapasse o perímetro do veículo. Uma reforma do Regulamento Geral de Circulação em 2025 veio clarificar ainda mais estes direitos, equiparando autocaravanas a veículos normais no que respeita ao estacionamento em via pública. Zonas protegidas e costa são exceção, aí as regras são mais rígidas e as multas podem ser significativas.
Vida selvagem
Comparado com a Austrália, o Canadá e os EUA, Portugal e Espanha são um descanso. Não há predadores, não há animais venenosos de relevo, não há nada que te queira matar ao pequeno-almoço. É uma das coisas que mais apreciamos quando regressámos.
Dito isto, há alguns cuidados a ter. Víboras existem em zonas mais rurais e serranas — não são agressivas, mas evita meter as mãos em sítios que não vês. Javalis são comuns e podem ser agressivos, especialmente fêmeas com crias. Alerta também para javalis e veados na estrada, sobretudo de noite, um embate com um pode ser sério.
Diferenças entre Portugal e Espanha
Espanha é muito maior e com mais diversidade regional, o que funciona numa comunidade autónoma pode não funcionar noutra, tanto em termos de leis como de costumes. Em Portugal a escala é mais pequena e tudo fica mais próximo. Os preços em Espanha tendem a ser ligeiramente mais baixos, especialmente combustível e restauração fora das zonas turísticas. A rede de áreas de serviço em Espanha é mais desenvolvida do que em Portugal, o que facilita encontrar WC, duche e água em viagem.













































