Já tivemos a oportunidade de fotografar alguns eclipses parciais e um total, e é sempre uma experiência espetacular. No dia 12 de agosto de 2026 vai haver um eclipse total do sol visível na Península Ibérica, na Gronelândia e na Islândia, por isso decidimos escrever este guia para te ajudar a planear, ver e fotografar este fenómeno raro em segurança.
Fora a matemática óbvia, num eclipse solar os 0,1% fazem toda a diferença!
Usando o eclipse de 12 de agosto de 2026 como referência, este vai ser total sobre uma faixa que atravessa o norte de Espanha, mas o resto do país e Portugal só vão ter um eclipse parcial. No caso do nosso país, há uma pequena faixa do Parque Natural de Montesinho, entre as aldeias de Rio de Onor e Guadramil, a cerca de 26 km de Bragança, que vai ter totalidade, mas apenas durante um máximo de 26 segundos. Em Espanha, a totalidade chega a durar quase 2 minutos na zona das Astúrias. Por causa desse cantinho no Montesinho, Portugal vai, tecnicamente, ter um eclipse total – o primeiro desde 1912, e o próximo só em 2144.
O Montesinho tem outro probema: como é um parque natural e a zona da totalidade é muito pequena, eles devem limitar o número de pessoas que podem estar na área. As estradas também são apertadas e com várias curvas, por isso parar para assistir não é opção, e imaginamos que vá estar imenso trânsito
A principal razão para um eclipse total ser mais interessante do que um parcial é que para além de incluir a parcialidade, durante a totalidade fica de noite, o que torna a experiência surreal. Foi isso que testemunhámos: o ambiente escureceu, e os pássaros ficaram agitados. Se estiveres próximo de uma cidade, as luzes deverão acender. Esta foi a nossa experiência em Fort Erie, no Canadá, no eclipse total de 8 de abril de 2024. Estava muito nublado, mas isso tornou a experiência ainda mais interessante, já que conseguimos ver e filmar a sombra da Lua a mover-se ao longo das nuvens. Tínhamos vista desimpedida para Buffalo, cidade americana no estado de Nova Iorque, e vimos as luzes a acender como se fosse noite, isto às 3 da tarde.
A parcialidade, mesmo a 99,9%, deixa passar alguma luz, o que retira a parte mais interessante e surreal da experiência. A título de exemplo, à hora do eclipse de 12 de agosto em Portugal, o Sol já está baixo no horizonte, mas mesmo assim há muita luz disponível, o equivalente a cerca de 20.000 luas cheias. A 99,9% de obscurecimento, essa luz cairia para umas dezenas de luas cheias (bem menos do que uma simples divisão linear sugeriria, porque o centro do disco solar é mais brilhante do que a periferia, e é precisamente essa periferia que resta visível no último 0,1%). Para referência, estes seriam os valores aproximados de obscurecimento para as seguintes cidades:
- Zona dos 100% – Escuridão total
- Bragança — 99,9% – umas dezenas de luas cheias
- Porto — 98,2% – 360 luas cheias
- Coimbra — 97,2% – 560 luas cheias
- Lisboa — 94,5% – 1100 luas cheias
- Faro — 92,7% – 1460 luas cheias
Como o eclipse ocorre numa quarta-feira ao fim do dia, é compreensível que a maioria das pessoas não consiga deslocar-se a Espanha para ver a totalidade. Ainda assim, o eclipse parcial é incrível e vale muito a pena ver e fotografar.
No vídeo abaixo podes ver um timelapse do escurecimento provocado pela passagem da Lua em frente ao Sol, do eclipse total a que assistimos no Canadá em 2024. É possível ver o ambiente a escurecer como se fosse noite e a cidade de Buffalo a acender as luzes.
Já deves ter lido isto centenas de vezes, mas convém sempre reforçar: não deves olhar diretamente para um eclipse do Sol! Durante a maior parte da duração do eclipse (a fase parcial), a Lua ao tapar parte do Sol reduz o brilho aparente e engana o nosso olho: a pupila dilata-se como se houvesse pouca luz, o que deixa entrar ainda mais radiação solar (incluindo UV e infravermelha) do que entraria num dia normal, sem que sintas desconforto imediato. Como a retina não tem terminações nervosas sensíveis à dor, o dano pode não ser percetível na hora, e só aparecer horas ou dias depois, e por vezes de forma permanente. O mesmo é válido para qualquer câmara fotográfica: o sensor pode ficar danificado da mesma forma.
Para te protegeres, deves usar óculos próprios para observação de eclipses (norma ISO 12312-2) e não uses óculos de sol comuns porque não protegem o suficiente! Há várias lojas onde os podes comprar, mas o Club da Visão está a oferecer um par por pessoa, em colaboração com a ZEISS. Basta registares-te no site deles e levantar os óculos numa ótica aderente.
Para a tua câmara, vais querer um filtro solar que use o mesmo tipo de material e siga a mesma norma ISO 12312-2 dos óculos. Na Europa parece haver pouca escolha e os preços são mais altos, mas quando estivemos no Canadá comprámos um da Celestron, adaptável a várias lentes, por cerca de 10€.
Planear ver o eclipse é relativamente simples; já fotografá-lo pode ser bem mais complexo.
Em Portugal, o eclipse começa por volta das 18:30, atinge o pico por volta das 19:30 e termina por volta das 20:30. Em Espanha será mais ou menos ao mesmo tempo, mas uma hora mais tarde na hora local (Espanha está uma hora à frente de Portugal). Como o pico ocorre cerca de uma hora antes do pôr do sol, este vai estar relativamente baixo no horizonte, a cerca de 10°. Por isso, tens de ter atenção a obstruções no horizonte, como edifícios, árvores ou montanhas. A nossa recomendação é subires a um sítio alto ou ires para a costa. Felizmente, como a direção do Sol ao longo de todo o eclipse ronda o oeste (entre cerca de 272° e 290° de azimute), qualquer zona da costa de Portugal continental deverá ter uma vista desimpedida, com exceção da costa sul do Algarve.
Nós vamos fotografar em Espanha para apanhar a totalidade, mas como não queremos publicitar o local, que nos deu muito trabalho a encontrar e a planear, vamos usar o local que escolheríamos se ficássemos em Coimbra para explicar o planeamento: o Alto do Trevim, no topo da Serra da Lousã.
Antes de mais, é preciso ter em consideração os seguintes horários:
- Início da parcialidade: 18:36 — Elevação: 21.1° — Azimute: 272°
- Ponto máximo: 19:33 — Elevação: 10.3° — Azimute: 281°
- Fim da parcialidade: 20:26 — Elevação: 0.9° — Azimute: 289°
- Pôr do sol: 20:33 — Elevação: 0° — Azimute: 290°
Às 18:36 é quando a Lua começa a transitar em frente ao Sol, e ao longo de cerca de uma hora vai obstruindo cada vez mais até chegar ao ponto máximo. Este ocorre às 19:33, quando a Lua cobre o máximo do disco solar, cerca de 97.2%. A partir daqui, a Lua continua o seu movimento e começa a sair da frente do Sol. Às 20:26, a Lua deixa por completo de estar à frente do Sol, e 7 minutos depois este põe-se.
Se usares uma app como o PhotoPills, Sun Surveyor ou outra, consegues planear o eclipse ao pormenor consoante a tua localização. Como já temos experiência a fotografar o Sol, a Lua e as estrelas, já temos noção dos ângulos que as apps apresentam, mas não precisas de andar com um medidor de ângulos atrás. Nas apps podes usar a câmara ou o Street View para veres onde é que o Sol ou outros astros vão estar numa determinada data e hora. Ainda assim, convém perceberes o que é a elevação e o azimute, para saberes exatamente para onde deves olhar.
Estende o braço horizontalmente à tua frente — isso são os 0° de elevação. Se o levantares na vertical, fizeste um movimento de 90°. O máximo do eclipse vai ser a 10.3°, uma elevação relativamente baixa, daí a importância de não teres obstáculos no horizonte.
Podes usar a bússola do teu telemóvel para perceber onde fica o norte, e depois cada 90° de rotação corresponde a uma direção cardeal: este fica a 90°, sul a 180°, e oeste a 270° (ou -90°, se não quiseres andar às voltas). No máximo do eclipse, o Sol vai estar num azimute de 281° (-79°). Se souberes exatamente onde fica oeste, só tens de te virar para lá e olhar ligeiramente para a direita: 11° (281-270). Na segunda imagem do slide abaixo, consegues ver que às 19:33 os sol vai estar no azimute 280.7º, pouco à direita de oeste, e uma elevação de 10.4º.
Abaixo tens duas imagens de duas aplicações distintas que usámos para planear o eclipse. A primeira é o PhotoPills que, apesar de ser paga, é barata e já nos ajudou imenso em todas as nossas fotos de eclipses, alinhamentos do Sol e da Lua e também posição da Via Láctea. O ponto laranja é o Trevim, e as três linhas marcadas com as horas são o início, o pico e o fim do eclipse. A linha do fim é mais grossa porque inclui o pôr do sol, e como têm apenas 7 minutos de diferença, ficam sobrepostas. A segunda é um site com um planificador gratuito chamado heliora.app, que permite simular não só a posição do eclipse consoante a hora e a localização, mas também a obstrução por montanhas. Presumimos que não inclua outros obstáculos como edifícios e árvores, por isso atenção a isso.
Alinhar um objeto, pessoa ou edifício com o eclipse é todo um outro desafio, mas se o quiseres fazer, recomendamos o PhotoPills. Inicialmente pensámos em fazê-lo, mas decidimos não avançar por várias razões. Primeiro, porque mesmo sendo 10° uma elevação baixa, esta acaba por ser relativamente alta para um alinhamento, o que implica ter a câmara muito baixa. Isto também significa que há poucos sítios relativamente fáceis de planear um alinhamento, maioritariamente castelos e outros edifícios emblemáticos, e esses mesmos sítios vão atrair imensa gente com a mesma ideia, algo que queremos evitar ao máximo. Preferimos fazer algo mais simples: fotografar o eclipse com zoom máximo, mas também algo que não conseguimos fazer no Canadá: fotografar a paisagem com as várias fases do eclipse no céu. Como lá foi por volta das 3 da tarde, o Sol já estava demasiado alto para enquadrar a paisagem e eclipse na mesma foto. Mas mesmo que estivesse mais baixo, o céu nublado impediu-nos de o fazer.
Se o teu objetivo for apenas ver o eclipse, só precisas de uns óculos que cumpram a norma ISO 12312-2. Como o espetáculo dura quase duas horas, recomendamos que leves água e comida, e porque não um banco para te sentares e apreciares o espetáculo.
Para fotografar, não deverá ser preciso muito mais do que já deverás ter, mas tudo depende do que queres fazer. Este é o material que vamos usar e o seu propósito:
- Corpo — É um pouco óbvio que vais precisar de uma câmara fotográfica. No nosso caso, vamos usar duas para termos duas perspetivas diferentes: a Fujifilm X-T4 para o zoom máximo, e a Fujifilm X-T2 para uma fotografia mais abrangente.
- Lentes — Se usares uma câmara com lentes intercambiáveis, vais precisar de pelo menos uma lente. Nós vamos usar a Fujinon 70-300 + teleconverter 1.4x com o zoom no máximo (distância focal de 420 mm), o que nos vai permitir fotografar o disco solar em grande dimensão. Gostaríamos de ter mais alcance, mas é a lente mais longa que temos. Para a foto mais abrangente vamos usar a Fujinon 16-55. Podíamos usar a 10-24, mas além de acharmos que não há necessidade de apanhar tanta paisagem, quanto mais abrangente a lente, mais pequeno o Sol vai parecer.
- Tripé — Preferencialmente robusto. Vamos usar o Travel da Peak Design e um da K&F.
- Filtro solar — Já mencionámos, mas vamos usar filtros da Celestron, modelo EclipSmart. São simples, baratos e adaptam-se a várias lentes. Não uses filtros ND: podem parecer escuros o suficiente, mas não bloqueiam os raios UV e IV que vão literalmente fritar o sensor da câmara!
- Intervalómetro — Deves usar um para a câmara fotografar de forma contínua. Nós não vamos usar, pelo simples facto de ambas as câmaras terem esta função integrada no software.
- Baterias extra — Convém ter sempre. Nós não usamos porque as nossas câmaras permitem carregamento e funcionamento via USB, por isso vamos usar powerbanks.
- Drone — Ainda não sabemos se o vamos usar, pelo simples facto de não termos filtro solar para ele. Usámo-lo no Canadá para filmar o ambiente a escurecer, mas com o sol tão próximo do horizonte e (esperemos nós) com um céu limpo, não o devemos usar.
- DJI Pocket 3 — Câmara de filmar. Vamos usar para filmar o ambiente a escurecer, mas o mais provável é não apontarmos na direção do Sol.
- Insta360 X3 — Mesma razão que a anterior, mas para vídeo 360°. Ainda não sabemos como vamos evitar o Sol…
- Star tracker — Usamos este aparelho para contrariar a rotação da Terra e conseguir fotos com melhor qualidade da Via Láctea. Pode ser usado da mesma forma para seguir o Sol, mas o desafio é fazer o alinhamento inicial, o que implica a presença da estrela Polar, obviamente não visível de dia. Ainda assim, um alinhamento parcial vai ser melhor do que nenhum alinhamento (explicamos mais no ponto 7).
- Cartões de memória — Se fotografares a sequência completa vão-te fazer falta.
Não há definições mágicas, até porque estas podem variar consoante a câmara, a lente e se o céu está limpo ou não. Por causa da introdução do filtro, recomendamos que vás para a rua, coloques o filtro, e tentes fotografar o Sol à mesma hora do dia em que vai ocorrer o eclipse. Testa as definições seguindo as instruções abaixo e ajusta-as para estares preparado para o dia.
Para o eclipse parcial, vamos usar o modo manual ou com prioridade à abertura. Usamos uma abertura fixa num valor que nos permita a máxima qualidade possível, normalmente f/8, o ISO no mínimo (160 na X-T4 e 200 na X-T2), e deixamos o tempo de exposição ser determinado pela câmara. Numa foto abrangente não nos vamos preocupar com o tempo de exposição, mas numa foto com muito zoom, um tempo mais longo, próximo de 1 segundo, pode resultar em arrasto. Se for esse o caso, aumentamos a abertura ou o ISO. Foi o que aconteceu no eclipse do Canadá em 2024, onde, por causa das nuvens, uma abertura de f/8 e ISO 160 implicavam um tempo de exposição de 1/8 segundo. Com receio de as fotos ficarem arrastadas, aumentámos um pouco o ISO. De notar que f/8 já é a abertura máxima da Fujinon 70-300 a 300 mm com o teleconverter montado, senão teríamos aumentado a abertura antes de aumentar o ISO. As nuvens podem causar imensa dificuldade: tivemos fotos que, para terem exposição correta, precisaram de 1/8s, enquanto outras precisaram de 1/8000s ou menos quando as nuvens eram menos espessas!
Na totalidade, podes e deves retirar o filtro, assim como os óculos. A Lua bloqueia o Sol por completo e, por isso, só deixa a coroa solar visível, que não é perigosa de observar. Para capturares o máximo de detalhe possível da coroa, da cromosfera e das Baily’s beads, deves fazer a captura com várias exposições, por isso se a tua câmara tiver bracketing automático de exposição (AEB), usa-o! No eclipse do Canadá em 2024, mantivemos f/8 e ISO 160, mas o tempo de exposição foi de 2 segundos por causa das nuvens.
Se estiveres a fotografar uma sequência, retirar o filtro e mudar as definições não é fácil e exige alguma destreza. Não vai ser simples, mas não desesperes: respira fundo, aproveita o espetáculo e faz as coisas com calma.
Foco manual — o autofoco pode “caçar” (hunt) através do filtro, ainda mais em contraluz. Deves focar manualmente no limbo (borda do disco solar) antes do eclipse começar, e não voltar a mexer no foco depois disso. Deves focar na borda e não no centro do sol porque um disco uniforme sem contraste (como o centro do Sol através do filtro) é mais difícil de confirmar como bem focado do que a borda nítida do disco.
Estabilização de imagem (OIS/IS/IBIS) desligada — com a câmara num tripé, a estabilização ótica das lentes ou do sensor pode piorar a nitidez em vez de ajudar, por isso deves desligá-la.
Obturador eletrónico — praticamente todas as mirrorless e muitas DSLR permitem usar o obturador eletrónico em vez do mecânico, o que evita vibração da câmara (shutter shock), especialmente relevante em tempos de exposição intermédios com muito zoom. No caso das DSLR, também recomendamos que utilizes o bloqueio de espelho (mirror lock-up).
Formato RAW — dado o alto contraste da cena (sobretudo na totalidade), fotografar em RAW dá muito mais margem para recuperar detalhe na edição, e permite-te também ajustar o white balance mais tarde.
Amplitude do bracketing na totalidade — a coroa solar tem um alcance dinâmico enorme (do anel de diamante aos filamentos exteriores ténues), pelo que recomendamos que uses o bracketing (AEB) mais amplo possível, 9 exposições no caso das nossas Fujifilm’s. Em situações normais usamos 1 stop de intervalo entre cada exposição, mas neste caso vale a pena usar 2, o que com 9 exposições dá uma gama dinâmica total de 16 stops.
A totalidade dura poucos segundos (no Montesinho, cerca de 26; em Espanha, até quase 2 minutos consoante o local), mas dentro desse curto espaço de tempo acontecem várias fases distintas, cada uma com um visual completamente diferente. Vale a pena saberes a sequência de antemão, porque não vais ter tempo para pensar no momento: é tudo muito rápido e a tentação de simplesmente pousar a câmara e ver é grande (e legítima).
1. Anel de diamante (entrada)
Nos segundos antes da totalidade começar, resta apenas um pontinho de luz solar visível, o “diamante”, com a coroa já a começar a aparecer à volta, o que cria o efeito de anel. É nesta altura que deves retirares o filtro solar (nunca antes disto). A luz ainda é intensa, por isso a exposição deve ser curta.
2. Baily’s beads
Pouco depois do anel de diamante, a última luz solar passa pelos vales na superfície irregular da Lua, o que cria uma fileira de pontos brilhantes, como um colar de pérolas de luz. É rápido e fácil de perder se não estiveres à espera.
3. Totalidade — coroa solar
O Sol desaparece por completo atrás da Lua. É agora que vale a pena disparar o bracketing mais amplo (como referimos no ponto anterior): a coroa estende-se muito além do disco solar, com brilho a decair rapidamente da borda para fora, por isso precisas de exposições curtas para captar os detalhes próximos do bordo e mais longas para os filamentos exteriores, mais ténues.
4. Totalidade — cromosfera e proeminências
Perto do início e do fim da totalidade, é possível ver uma fina camada rosada/avermelhada à volta do bordo lunar, a cromosfera, e por vezes pequenas “chamas” salientes, as proeminências solares. São bastante mais ténues que a coroa e só visíveis nesses breves instantes.
5. Baily’s beads e anel de diamante (saída)
A sequência repete-se ao contrário à medida que a totalidade termina: primeiro as Baily’s beads do lado oposto do disco, depois o anel de diamante de saída. Assim que este aparece, deves voltar a colocar o filtro solar de imediato porque a luz volta a ficar perigosa.
Uma nota prática: com tão pouco tempo disponível, decide antecipadamente quanto tempo vais dedicar a fotografar vs. simplesmente a ver a olho nu. Muitos fotógrafos experientes recomendam reservar pelo menos os últimos 10-15 segundos da totalidade só para observar, sem câmara, já que é uma experiência que compensa viver diretamente, e a totalidade não perdoa quem passa o tempo todo a olhar para um ecrã.
Para conseguires uma foto como a do início deste guia, tens de fotografar as várias fases do eclipse a intervalos regulares (por exemplo, a cada minuto durante a parcialidade) e depois montar uma única imagem composta que mostra a “trajetória” do eclipse, onde é possível ver o Sol em vários pontos do céu, cada vez mais tapado pela Lua.
Deves manter a câmara fixa no mesmo enquadramento do início ao fim (o tripé não pode mexer), e os disparos devem ser feitos a intervalos regulares e cronometrados (podes fazê-lo manualmente, mas recomendamos usar um intervalómetro). Depois, combinas as várias exposições em pós-produção (Photoshop, normalmente com blend mode do tipo “lighten”).
Um intervalo de 1 minuto é só uma sugestão de referência, a escolha certa depende da duração total do eclipse na localização (quanto mais curto o eclipse, menor o intervalo entre disparos para conseguires fases bem distribuídas).
Se fizeres uma foto abrangente não precisas de te preocupar, mas fotografar com um zoom elevado é muito mais desafiante. A Terra gira sobre si própria, e vemos esse movimento aparente no Sol. No nosso caso, a 420mm, o Sol atravessa facilmente o campo de visão em menos de 10 minutos. Isto implica teres de reorientar a cabeça do tripé constantemente, o que faz com que as fotos tiradas durante essa reorientação fiquem tremidas. É aqui que o star tracker entra, para contrariar esse movimento de rotação. Mas, além de ser muito mais difícil de alinhar durante o dia (usa a estrela Polar para o alinhamento), quanto mais zoom, mais se nota um alinhamento mal feito. Ainda assim, é melhor do que não usar um tracker: no eclipse parcial de 29 de março de 2025, usámos o nosso e conseguimos não ter de reorientar a câmara em intervalos inferiores a 15 minutos.
Se não tiveres uma câmara podes usar o telemóvel para fotografar. Se tiveres um com várias câmaras, podes e deves usar a que tiver mais zoom. Nós já o fizemos em vários eclipses, só para ter uma foto com o telemóvel, e usamos os óculos como filtro. Existem adaptadores e filtros próprio, mas se não tens uma câmara, não achamos que valha a pena gastar dinheiro em acessórios específicos para telemóvel quanto de vai dar zero ganhos reais comparado a usar os óculos.
Tal como fotos normais, não vais conseguir a mesma qualidade e detalhe que uma câmara, e mesmo não sendo impossível, vai ser muito mais difícil conseguir uma sequência. Se o teu telemóvel tiver essa opção, fotografa em modo manual.
Todas as fotos abaixo foram tiradas com o Samsung Galaxy S22 Ultra com a câmara de 10x. A primeira foi no eclipse parcial a 29 de Março de 2025 em Coimbra com os óculos como filtro, enquanto que as seguintes foram durante o eclipse total a 8 de Abril de 2024 em Fort Erie no Canadá. Devido às nuvens fortes tirámos as fotos sem filtro (óculos).
A maioria dos erros no dia do eclipse podem ser de falta de técnica, mas a gestão do tempo e do stress podem ser mais complciadas. Deixamos-te algumas dos erros mais frequentes baseados na nossa experiência:
Passar a totalidade a mexer em definições. A totalidade pode durar segundos ou poucos minutos. Se só nesse momento estiveres a decidir que exposição usar ou a testar o bracketing, já perdeste metade dela. Todas as definições devem estar decididas e testadas antes, tal como referimos no ponto 5: sai de casa antes do dia do eclipse e treina com o filtro posto.
Esquecer de retirar o filtro e mudar as settings na totalidade. Se retirares o filtro sem mudar as settings, a coroa solar fica sobre-exposta e invisível, e ficas com uma foto em branco. É um erro fácil de cometer no momento, especialmente se estiveres nervoso ou a gerir mais do que uma câmara ao mesmo tempo.
Esquecer de voltar a pôr o filtro depois da totalidade. O erro inverso, mas mais grave: assim que o anel de diamante de saída aparece, o Sol volta a estar perigoso, tanto para os teus olhos como para o sensor da câmara. Se ficares tão absorvido pela experiência que te esqueças disto, arriscas danos reais e permanentes. Decide antecipadamente quem (ou o quê) te vai avisar quando a totalidade estiver prestes a terminar.
Não testar o setup antes do dia. Tripé, filtro, foco manual, obturador eletrónico, bracketing — cada um destes pontos foi referido nas secções anteriores porque, individualmente, são simples. Juntos, sob pressão de tempo e talvez com nervosismo à mistura, tudo o que não estiver bem ensaiado vai correr mal. Um ensaio completo, com o Sol normal (fora do dia do eclipse), é a única forma de garantir que sabes exatamente que botões tocar, e em que ordem, quando o momento chegar.
No fundo, o eclipse não perdoa improviso. O trabalho todo faz-se antes e não no dia!



















